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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Pois mãos à obra! Todo aquele que encontra em casa o ladrão que lhe vai roubar o simples dinheiro tem direito a meter-lhe uma carga de chumbo nos miolos, e, como há de fica. de braços cruzados o que se vê ameaçado na sua honra, na sua fortuna na sua mulher e na sua tranqüilidade?... Sim, fica... quando é um miserável!

um basbaque!

— Reverendo, juro-lhe que...

— Então avie-se! Está a fugir a única ocasião que Deus lhe faculta!.. Amanhã será tarde!... já ele a terá por justiça e, ainda que não se casem, o escândalo será patente! Resolva-se ou deixe por uma vez o campo livre ao mais forte e mais esperto!

— Adeus, senhor cônego!

— Vá com a Virgem Santíssima!

E o Dias, de cabeça baixa, passos largos e abafados subiu a Rua da Estrela. De repente, voltou, chamou o padre e perguntou-lhe alguma coisa ao ouvido.

— E melhor, é...

O caixeiro tomou então a Rua de Santana.

Daí a uma hora, o compadre de Manuel, depois de saborear a sua canja e depois de amaciar o lombo luzidio do seu maltês fazia a oração do costume e espichava-se tranqüilamente numa rede de algodão, lavada e cheirosa, disposto a passar uma boa noite.

CAPÍTULO XVIII

Entrementes, Ana Rosa chorava no seu quarto; Manuel continuava a passear na sala, com as mãos cruzadas atrás e a cabeça descaída sobre o peito, como se uma preocupação de chumbo a puxasse para baixo; e Maria Bárbara ceava na varanda, resmungando, embebendo fatias de pão torrado na sua xícara de chá verde. E a noite envelhecia, e as horas rendiam-se, que nem sentinelas mudas, e nenhum dos três procurava dormir, afinal, Marta Bárbara obrigou o genro a recolher-se, depois foi ter com a neta e dispôs-se a fazer-lhe companhia até amanhecer Em breve, porém a velha ressonava, e tanto o pai, como a filha, viram, através das suas lágrimas, nascer o dia.

Raimundo, esse vagara pelas luas da cidade, com o coração encharcado de um grande desanimo. Apoquentava-o menos a estreiteza da situação do que a brutal pertinácia daquela família, que preferia deixar a filha desonrada a ter de dá-la por esposa a um mulato. “Com efeito!... Em preciso levar muito longe o escrúpulo de sangue!...” E, malgrado o vigor e a firmeza com que ele até ai afrontara as contrariedades, sentia-se agora abatido e miserável Na transtornada corrente das suas idéias a do suicídio misturava-se, como uma moeda falsa que mareasse as outras Raimundo repelia-a com repugnância, mas a teimosa reaparecia sempre. Para ele o suicídio era uma ação ridícula e vergonhosa, era uma espécie de deserção da oficina; então, para animar-se, para meter-se em brios, evocava a memória dos fortes, lembrava-se dos que lutaram muito mais contra os preconceitos de todos os tepos; e, de pensamento em pensamento, sonhava se em plena felicidade doméstica, ao lado de uma família amorosa, cercado de filhos, e feliz, cheio de coragem, trabalhando muito, sem outra ambição, além de ser um homem útil e honrado. Mas todas estas esperanças já lhe não acordavam no espírito o mesmo eco de entusiasmo agora, o que mais o preocupava era a sua humilhação e o seu amor ultrajado: desejava esposar Ana Rosa, desejava-o, como nunca, mas por uma espécie de vingança contra aquela maldita gente que o envilecia e rebaixava; queria amarrá-la ao seu destino, como se a amarrasse a um posto infamante: queria espalhar bem o seu sangue, porque onde ele caísse, deixaria uma nódoa escandescente; precisava, para sofrer menos, ver sofrer alguém; era necessário que os outros chorassem muito, para que, por sua vez. risse um pouco. “Oh! havia de rir!. Ana Rosa pertencer-lhe-ia. de direito! .. Por que não? . Ele tinha a lei por si! Quem poderia impedir lhe de tirá-la por justiça?... Além de que, com um filho nas entranhas. ela lhe obedeceria como escravas!...”

E ruminando estes projetos fingindo-se muito senhor de si, mas com grande desespero a ladrar-lhe por dentro. Raimundo vagabundeava pelas mas, `a espera que amanhecesse, com as mãos nas algibeiras. vacilante como um ébrio. Impacientava-se pelo dia seguinte, perecia atraí-lo com a sua ansiedade crescente; aquela noite, comprida e silenciosa, pesava-lhe nas costas, que nem a mochila do soldado no meio da batalha. “Sim! urgia que amanhecesses!... queria tratar dos seus interesses, liquidar aquela maçada. aquela grande maçada!. . Mais doze horas, doze horas! e estaria tudo concluído! No dia seguinte estaria tudo pronto! ele no primeiro vapor seguiria para a Corte, acompanhado da esposa, feliz, independente! sem lembrar-se, nunca mais, do Maranhão, dessa província madrasta para os filhos!'

Ao chegar ao Largo do Carmo, assentou-se num banco. Um vento fresco agitava as árvores: ameaçava chuva; ouvia-se o surdo e longínquo marulhar da costa, e, por ali perto, em algum sarau, urna garganta de mulher cantava ao piano a “Traviata”.

(continua...)

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