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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Eis aí como decorreu a inútil mocidade de Gregório até aos vinte e dois anos. Mais um passo e chegaremos ao ponto em que principia este pobre romance e onde justamente há de ele acabar; quer dizer, refluiremos à cena do malogrado casamento de Clorinda.

Durante esse rápido ano, que liga o primeiro capítulo ao último, sucederamse poucos mas palpitantes acontecimentos, que justificam muitas outras cenas.

Nesse pequeno espaço de tempo, Olímpia sofreu, por amor de Gregório, todos os martírios que nos podem influir nos ciúmes. Quanto mais ele se esquivava, tanto mais atraída ela se sentia.

Olímpia estava na idade em que o amor toma o caráter de moléstia; na idade em que a mulher é capaz de todas as loucuras pelo objeto amado; em que ela é capaz de todos os sacrifícios, de todas as abnegações, menos a de consentir que o herói dos seus sonhos a despreze por outra. E foi isso justamente o que fez Gregório, desde aquela cena absurda de cócegas no pitoresco chalezinho de Júlia Guterres.

Como já sabe o leitor, a viúva, logo que perdeu o marido, tratou de recolher os bens que lhe ficaram, e retirou-se para a Tijuca, onde nós e a polícia, a encontramos, quando se tratava de descobrir esclarecimentos a respeito de Gregório; da mesma forma, não ignora o leitor qual foi a direção que tomaram os novos amores do inconstante rapaz, e como chegou ele a armar casamento com Clorinda.

Pois bem; tratemos de esclarecer o que falta e apressemos o passo, para chegarmos, quanto antes, aos resultados das cenas dos primeiros capítulos.

Olímpia não pôde disfarçar por muito tempo o seu martírio, e a dor dos ciúmes transformou-se para ela em cruel enfermidade, acelerando o embranquecer do cabelo, o enrugar da tez e o desbotamento das faces. Quando o Dr. Roberto voltou do norte, o que proporcionou a Gregório o seu primeiro encontro com a bela Clorinda, quase que não a reconheceu e declarou que muito pouco lhe daria de vida.

Gregório correu então para junto dela, mas a sua presença não conseguiu espantar a morte, que estendia já sobre a infeliz a sombra negra de suas asas.

Ele, por sua parte, não levava o coração ainda cativo dos amores da viúva, mas já suavemente impregnado pela nova afeição que lhe inspirara a filha de Leão Vermelho.

Estava outro: não era o mesmo folgazão das correrias com o padre Beleza; ao contrário, convertido e civilizado, forcejava agora por vencer as últimas ondas da mocidade, e abrigar-se enfim no casamento, cujas praias via branquejarem além, iluminadas, por um doce luar de tranqüila ventura.

Olímpia faleceu numa noite de inverno, depois de grande agonia. O Dr. Roberto não lhe abandonara durante muitos dias a cabeceira, e o Figueiredo mandara dois de seus empregados para ajudarem nos trabalhos do enterro.

Gregório chorava ao lado do cadáver. Nunca se persuadiu que sentisse tanto aquela morte. Olímpia entrara na sua vida como um incidente fantástico e romanesco no meio de um livro de apontamentos banais; arrependia-se agora de não ter sido com ela melhor, mais generoso, mais grato; sentia remorso de não a ter amado um pouco mais!

E, para fugir a essas idéias aborrecidas, chamava egoisticamente em seu socorro a imagem adorada de Clorinda. Ah! esta era o futuro, a esperança de felicidade, era a aurora do dia seguinte.

E só a lembrança destas novas claridades lhe secava os últimos orvalhos daquela noite que fugia, perdendo-se nas sombras inalteráveis do passado.

De todos, enfim, quem parecia mais sentido com tudo aquilo era o velho Jacó. O pobre homem viu, em torno de si, caírem, a pouco e pouco, as árvores queridas, a cuja sombra abrigava a fraqueza da sua velhice.

Gregório ofereceu-lhe a casa e insistiu com ele para que fosse fazer-lhe companhia. Jacó aceitou, e por isso o vimos figurar no interrogatório policial logo no começo do romance

Em breve, Gregório não tinha outra idéia que não fosse a da sua querida noiva, e Júlia Guterres principiava a curtir os mesmos tormentos por que passara Olímpia.

Se as mulheres, e principalmente aquelas que já se despiram das primeiras ilusões, soubessem quanto é perigoso amar deveras um rapaz que ainda não pagou todos os tributos da mocidade, não se deixariam tão facilmente prender aos efêmeros transportes de um namorado de vinte anos.

O coração nessa idade está ainda muito verde para arder. É preciso que o tempo e as lentas decepções da vida o ressequem, sem o que não pegará fogo.

E dizem os irrefletidos que o coração dos velhos é que é frio. Que injustiça!

(continua...)

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