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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Se fosses o único a sofrer as conseqüências de tuas cabeçadas, vá! Mas é que nós todos temos de as agüentar! agora só quero ver como te arranjas! Onde vais tu descobrir dinheiro para sustentar a casa! É preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas mãos e atirá-la pela janela fora! Agora é que eu quero ver! Anda! Vai arranjar hóspedes! Vê se descobres um novo Amâncio! ou quem sabe se contas viver do que der o cortiço da Rua do Resende?! Fizeste-a bonita; os outros que amarguem!..

Calou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo:

— Olha! Por estes três meses já podes avaliar o que não será o resto! — Não há mais um punhado de farinha em casa; a companhia já ontem nos cortou o gás, porque não lhe pagamos o trimestre vencido; o último criado que nos restava foi-se há mais de quatro semanas, dizendo aí o diabo; só nos fresta a mucamas, que é aquele estafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os dias o tratamento de Nini! — E tu!...tu! — sem um emprego, sem um rendimento, sem nada! — Então?! (E pôs as mãos nas cadeiras, com um riso abominável de ironia). Então?! Estamos ou não estamos arranjadinhos?!...O que te afianço é que não me sinto nada disposta a tornar a inferno da existência que curti na Rua do Resende! Vê lá como te arranjas!

Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder à mulher. “Tinha medo de fazer um despropósito!

— “Que miséria de vida, a sua! Refletia ele. — Nem ao menos a própria família o consolava! Por toda a parte a mesma perseguição, o mesmo ódio, a mesma luta! — Que seria de si?! Que fim poderia ter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter os seus?! — E as custas do processo, e as despesas que fizera?! — O alferes e o homem da venda exigiam o pagamento do que depuseram contra Amâncio, a quem mal conheciam de vista; aquele o ameaçava com um escândalo, se Coqueiro não lhe “cuspisse pr’ali os cobres “, o outro o abocanhava pela vizinhança, fazendo acreditar que o devedor era, nem só um caloteiro, como um bêbado!

E não havia dinheiro para nenhuma dessas coisas!

— Um inferno! Um verdadeiro inferno! — Os moradores da Rua do Resende há que tempos que não pingavam vintém; — O Damião estava já pelos cabelos para arriar a carga: “Não podia mais aturar semelhante corja!” dizia e contava até que um dos inquilinos lhe tentara chegar a roupa ao pêlo por questões de aluguéis.

E o Coqueiro viu arrastar-se todo aquele mau dia na mesma inferneira.

À noite, foi preciso acender velas em substituição do gás suprimido. Amélia não comera desde a véspera e queixava-se agora de muitas dores de cabeça, náuseas, tonturas de febre e um fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo0 pequenas manchas roxas. Mme. Brizard só abria a boca para fazer novas recriminações e praguejar; na sua cólera chegara alguns tabefes ao filho, e este rabujava a um canto, embesourado e casmurro.

— Antes morresse! Antes, mil vezes antes! Repisava o Coqueiro, sentindo-se esmagar debaixo daquele desmoronamento. —Que faria agora de uma irmã prostituída, e de uma mulher desesperada?!...

E as horas arrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa mal esclarecida tinha uma tristeza lúgubre de igreja deserta.

Afinal, Mme. Brizard foi para a cama com o filho, Amélia parecia mais tranqüila; só o Coqueiro velava, só ele, com o seu desespero a triturá-lo por dentro. Não podia sossegar um minuto — era deixar-se ir consumindo pelo sofrimento, até que a dor cansasse de doer e os tais bichos negros do coração lhe comessem o último bocado de carniça. Sentia, porém, uma espécie de volúpia pungente em reler as cartas anônimas que lhe enviaram durante o dia; encolerizava-se com isso, mas não podia deixar de as ler, como quem não resiste a tocar numa parte dorida do corpo.

Três, nada menos do que três cartas anônimas, e cada qual a mais insultuosa e mais perversa; não lhe poupavam coisa alguma: — a vergonha real da situação, o ridículo que havia de o acompanhar para sempre, a ojeriza que o público lhe votava espontaneamente; tudo lá estava; tudo vinha descrito com uma minuciosidade cruel, e com pequeninas considerações ultrajantes, com o terrível cuidado de quem se vinga.

E, para o efeito ser mis completo, falavam intencionalmente, com entusiasmo, nas conquistas e nas simpatias do outro, do querido, do “feliz”! Não se esqueciam da menor circunstância lisonjeira para Amâncio: — o modo pelo qual o receberam ao sair da prisão — os vivas, – as flores desfolhadas sobre ele, – os oferecimentos, — as declarações de amor, — os ramilhetes que lhe deram, — os brindes; tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar, para moer.

(continua...)

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