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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Mas, para que diabo me está o senhor a mortificar?... Minha mãe fala­me aqui a respeito da venda que fiz da casa do Engenho Novo: eu, porém, não cometi nenhuma ilegalidade com isso — a casa era minha! — nem podia eu adivinhar que um fato, aliás tão insignificante, trouxesse tais conseqüências!... Minha mãe, se não está comigo, é porque não quer... ela sabe perfeitamente que eu não lhe fecharia a porta. E para acabar com a questão, vou dar­lhe uma mesada.

E tornou­se a assentar­se.

— Mas, é o diabo! disse ela depois. Não me convinha envolver estranho algum neste negócio!...

— Bem! rematou Gustavo, tomando o chapéu; isso já não é comigo... Direi, pois, à senhora sua mãe alguma cousa a respeito da mesada, e mais tarde, então, a senhora responderá à carta por escrito...

E fez um cumprimento, despedindo­se de Ambrosina.

— Ainda não se vá!... pediu esta, com a voz suplicante e lançando sobre Gustavo um belo olhar de leoa subjugada.

— Em que lhe posso ainda ser útil?... perguntou o rapaz voltando­se.

— Em muita cousa, disse ela, tomando­lhe o chapéu e segurando­lhe uma das mãos. Venha cá... Conversemos...

E depois de novamente assentados:

— O senhor vai ser o meu procurador em todos os negócios que disserem respeito à minha mãe.

— Está bem...

— Imagine que será a única pessoa senhora desse segredo, e que deve guardar sobre o assunto a maior discrição...

— Pode ficar descansada.

— Já que o acaso o pôs ao meu lado neste triste negócio, eu só ao senhor confiarei os meus sentimentos e as minhas intenções... Não me diga que não!

E, abalando mais a voz e chegando­se intimamente de Gustavo, acrescentou, quase com a boca em seu ouvido:

— Não calcula quanto sofro!... Não calcula quanto me custou fingir a indiferença, que ainda há pouco afetei ao receber esta carta!... o modo pelo qual está ela escrita revela coração e caráter. Sei que nunca me hei de arrepender de fazê­lo solidário de minhas penas íntimas ...

O senhor será o único homem que participará dos meus segredos, mas antes disso há de prometer­me uma cousa...

— Que cousa?...

— Ser meu amigo e prová­lo prestando­me desde já um serviço...

— Qual é?...

— Prevenir minha mãe de que eu irei hoje visitá­la, e vir buscar­me à meia­noite para me levar ao cubículo em que ela mora. Está dito?...

— Pois não...

— Oh! Eu lhe serei muito grata!... Conto então com o senhor à meia­noite?

— Sem falta.

— Pois bem, à meia­noite o espero aqui mesmo. Já me encontrará pronta para o acompanhar.

— Nesse caso, até logo, disse ele.

— Adeus, meu amigo.

E Ambrosina estendeu a fronte, que Gustavo não beijou.

À hora predileta, já ela com efeito, entocada num carro de praça, esperava pelo rapaz defronte da porta de casa. E dentro em pouco chegavam os dois à miserável residência da viúva do comendador Moscoso.

Graças a Gustavo, a lavadeira tinha sido antecipadamente prevenida daquela misteriosa visita.

Todo o cortiço ressonava, prostrado pela grossa labutação desse dia.

Ambrosina, vestida de negro e embiocada em mantilha entrou na estalagem pelo braço do poeta.

Ia pressurosa e confusa, mas não era a mãe, coitada desta! quem a preocupava nesse instante, era o enigmático rapazola que lhe dava o braço. Apesar de toda a sua diabólica perspicácia, não tinha ainda a presumida conseguido formar seguro juízo sobre que espécie de animal vinha a ser aquele estranho escrivinhador de novelas, que a tratava por cima do ombro e com um sorriso tão irritante quão pouco amáveis eram as suas palavras.

Ah! que Gustavo lhe preocupava o espírito e a trazia intrigada desde aquele seu primeiro olhar à porta do Arnaud, disso já não havia dúvida. Ambrosina a princípio procurou, não obstante, explicar o fato por um simples fenômeno de antipatia, mas depois teve de abrir mão dessa hipótese, à vista do insólito abalo nela produzido pelo espinhoso bilhete do estouvado na noite dos seus maiores triunfos, e agora pela quase agradável impressão que lhe causara a generosa atitude do boêmio com respeito à pobre velha, de quem ela era filha e mal se lembrava.

Sim senhor! dizia consigo a loureira; podia ele gabar­se de ter maravilhosamente comovido o belo e frio mármore de que era talhada a Condessa Vésper!

— Qual mármore! Os trinta anos de uma mulher, voluptuosa e materia1ista como aquela, jamais chegam desacompanhados de fundas modificações no seu temperamento. Ambrosina galgara à curvilínea idade em que a mulher perdida faz grande questão dos seus momentos de amor ex­ofício e, como para se desforrar dos intermináveis tédios do amor profissional, escolhe detidamente, gulosamente, contemplando, estudando em concentrado silêncio de conhecedor, o tenro e apetitoso eleito dos seus dispépticos sentidos, para afinal o saborear em remancho, reservada e grave, plenitude de uma delícia cevada e egoística. E Gustavo tinha então de vinte e quatro a vinte e cinco anos, fortes, sadios e bem aparelhados.

(continua...)

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