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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Daí a pouco abriu uma carteira, como esta, que eu vejo ali, Sr. Félix, e dentro dela... no fundo de um escaninho de segredo escondeu essa caixa de veludo negro, que devia também estar escondendo a prova de um crime ainda mais negro!...

E o desconhecido avançou para a mesa, onde estava a carteira de Félix; mas para logo teve de parar diante do moço, que, possuído de um violento tremor, pálido como um finado, lançando bolhas de espuma pelas comissuras dos lábios, colocou-se entre aquele e a sua carteira, e com voz sepulcral balbuciou:

— Nem mais um passo... ou grito... que me querem roubar... que...

— Não há de gritar, Sr. Félix; não há de mesmo abrir a boca; ou fá-lo-á somente para implorar-me piedade; nem se moverá daí, ou se der um passo, será para cair de joelhos a meus pés!...

— Senhor!... senhor!...

— Porque se quiser chamar alguém, eu bradarei bem alto — dentro daquela carteira existe a prova de um crime, uma caixa de veludo preto! — e então o senhor pedirá que me cale... que não diga nada...

— Silêncio!... silêncio!... balbuciou o guarda-livros.

— Porque se ainda quiser dar um passo, eu continuarei gritando — e dentro dessa caixa forrada de veludo preto está uma cruz cravada de brilhantes! — e então o senhor há de cair de joelhos a meus pés, implorando piedade...

Félix caiu com efeito de joelhos, e, abraçando-se com as pernas do desconhecido, exclamou:

— Compaixão... piedade!... não me perca pelo amor de Deus!...

O desconhecido, desprendendo-se das mãos de Félix, foi de novo sentar-se na cadeira que pouco antes ocupara; e, encarando o mísero guarda-livros, disse com um sorrir desdenhoso e terrível:

— Compaixão!... piedade!... não perdê-lo pelo amor de Deus!... oh! como é miserável e covarde o crime!...

— Perdão! perdão!... murmurou Félix.

— E posso eu perdoar-lhe?... não!... não!... é esse um direito que deve ser exercido por muita gente, já que muitos são os ofendidos: ouça-me! sabe quem eu sou?...

— Não... ou é o meu juiz...

— Eu sou um homem que deve tudo ao Sr. Lauro de Mendonça; que, conhecendo a desgraça do meu benfeitor, jurei demonstrar sua inocência, e demonstrá-la-ei! sou o braço do ofendido... eu sou a vingança!...

A voz deste velho desconhecido era como um trovão, e seu olhar cruelmente embebido no rosto de Félix, era como uma língua de fogo, que lhe ia até ao coração. Ele disse:

— Há sete anos, uma cruz cravada de brilhantes desapareceu da casa de Hugo de Mendonça; Lauro não tinha nem podia ter parte em semelhante acontecimento; o senhor o sabia; o senhor o denunciou como perpetrador do furto dessa cruz; primeiro crime — a calúnia. Só uma pessoa pode perdoar-lho: é Lauro de Mendonça.

Félix quis falar; porém, o desconhecido o não deixou fazer, e prosseguiu.

— Mas essa cruz cravada de brilhantes, que pertencia à filha de Hugo de Mendonça, havia com efeito desaparecido; e o senhor foi o miserável que a furtou: segundo crime — o furto. Uma outra pessoa há que só lho pode perdoar: é Honorina.

Félix fez de novo um movimento; e ainda o desconhecido o suspendeu, continuando:

— E a maldição que sobre Lauro lançaram seus avós e pai?... e os sofrimentos desse mancebo?... e a morte de sua extremosa mãe?... quem, Sr. Félix, quem há de perdoar tudo isso?... só ele, que foi o ofendido, só ele, que herdou a bondade do coração angélico de sua mãe; só Lauro.

O guarda-livros desabafou um surdo suspiro, e o velho disse ainda:

— Agora, Sr. Félix, o que é essa infernal trama, cujo resultado terá de ser a miséria de uma família inteira?... como se chama tão nefando crime?... basta-lhe, diz tudo o nome de ingratidão?... na palavra ingratidão poderá ser abrangida a falsidade, a traição, a infâmia de um homem, que com sua mão fere de morte o chefe de uma família a quem deve tudo?... de um guarda-livros, que vende com tamanha vileza o seu patrão?... E por qual chão tão escabroso arrastará o senhor o rosto para ir implorar perdão a todos esses que têm o nome de Mendonça?...

Félix estava sofrendo todos os tormentos do inferno.

— Oh!... exclamou o desconhecido; não era possível que, por mais tempo, continuasse a calúnia a manchar a virtude: é preciso convir de uma vez para sempre que não há véu suficientemente denso para esconder o crime. Deus castiga a maldade no próprio coração do mau com as torturas do remorso; mas não basta isso. Deus quer ainda que a inocência depois de perseguida e insultada pela aleivosia, apareça, enfim, bela e pura, como os raios do sol, passada a hora de um eclipse, brilham de novo luminosos e ardentes!... portanto, para o senhor houve desde sete anos uma pena justa e terrível, que lhe azedou talvez todos os seus dias, que o acompanhou nos seus prazeres, que fez o martírio de suas noites: havia o remorso!...

— Sim! sim!... disse Félix erguendo-se pálido e desfigurado; sim! eu tenho padecido horrivelmente!...

(continua...)

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