Por Inglês de Sousa (1891)
Não queria viver a vida que padre João da Mata gozara naquele sítio dos sertões de Guaranatuba, não sacrificaria todo o seu futuro à satisfação dos gozos impuros que o sangue de Pedro de Morais exigia imperiosamente, não, saberia dominar-se. Mas podia pecar uma vez, matar a enorme curiosidade do amor físico que o devorava, e resgataria a sua falta, indo resolutamente ao encontro dos ferozes mundurucus, para morrer às suas mãos pela glória da religião do Crucificado. Não era difícil recordar exemplos da história eclesiástica, que lhe servissem de precedente e lhe atenuassem o procedimento. A partir de Santo Agostinho, cuja mocidade fora um grande escândalo dos seus contemporâneos, o que o não impedira de vir a ser um dos maiores Doutores da Igreja, até ao famoso S. Jocó, passando por centenares de conversos, entre os quais o grande S. Paulo brilhava pelo esplendor da armadura divina, não faltavam casos de santos pecando contra a castidade e, depois, por um arrependimento sincero, ganhando um lugar no céu. Na modesta apreciação dos próprios méritos, padre Antônio de Morais não se achava em condições inferiores àqueles dois primeiros célebres pecadores, tocados da graça divina, pois não pensava em fazer como o filho de Mônica, que se chafurdara nos horrores da mais baixa devassidão, nem lhe passava pela cabeça cortar a Clarinha em pedaços, para esconder a falta, como fizera S. Jacó à pobre moça de família que lhe haviam confiado para a catequese.
Sentara-se num banco, sentindo muita fraqueza nas pernas, e ainda sem coragem de se meter na rede. Afinal de contas, que queria ele? Apenas satisfazer a imensa sede de gozo que o consumia, pagar o tributo ao sangue ardente que lhe corria nas veias, e ainda assim, entregando-se a um amor desinteressado e sem mescla de pensamento ruim. A rapariga ali estava, a pedir um homem de coração que a tomasse, e se havia de cair às mãos de algum tapuio boçal que colhesse aquela flor delicada, sem ao menos apreciar-lhe o valor, melhor era que a tomasse Antônio de Morais que se prezava de conhecer o que havia de belo e bom na natureza. Era um pecado? Era, mas para remir os pecados tinha padre Antônio o arrependimento, um arrependimento sincero, que o levaria até o martírio pela causa santa da religião que professava. Oh! ele bem sabia que resgataria aquela falta única da sua vida com o maior sacrifício que se pode exigir dum homem e mesmo dum padre. O seu caso não era, decididamente, pior do que o dos santos arrependidos, que renovavam os horrores dos gnósticos e picavam mulheres defloradas! Para as grandes faltas havia a grande misericórdia divina. O arrependimento lavava todas as culpas!
A argúcia lhe sorria, e ele próprio, com secreta vaidade, aplaudia a finura do sofisma e o bem lembrado da transação, pensando nos combates em que outrora vencera os silogismos do douto padre Azevedo. A luta íntima havia cessado, ele aproximara-se da rede, abrira-a, contemplando-a com um grande desejo sensual. Sentia-se outro homem, parecia-lhe que estava mais leve, que lhe haviam voado do cérebro umas nuvens que lhe tapavam os olhos da razão. Agora, sentado no fundo da rede, prestes a estender o corpo sobre o seio amoroso do alvo linho lavado, via tudo com a calma e segurança dum homem que não se deixa enganar por escrúpulos vãos. Admirava-se dos terrores infantis que o haviam perseguido, e começava a desconfiar de que não andara até ali o caminho do bom senso, mas um desvio da imaginação enferma.
Felizmente o senso comum do campônio, que as teorias e a disciplina do Seminário não lhe haviam tirado, espancava as dúvidas da mente escaldada pelo terror dum castigo imediato e que nada fazia prever. Adormecer na segurança do bem-estar atual, reservando para mais tarde os cuidados da salvação eterna, era a verdadeira filosofia prática que o amazonense adotava, que a floresta, o rio, toda a natureza amazônica ensinavam numa fresca madrugada. Adiar era ganhar tempo, sem perder coisa alguma; graças à infinita bondade do Criador sempre havia tempo para remir as mais graves culpas, e disso dera exemplo Cristo perdoando à Madalena os seus lúbricos amores.
Também o bom ladrão, apesar de ladrão, na mesma noite em que morrera, fora dormir no paraíso. Para que gastar as forças em sacrifícios sobre-humanos, quando se é jovem e a vida se arrasta lenta e desocupada? Para que recusar a taça dos deleites, como Cristo recusara a de amarguras, se era sempre tempo de pedir o remédio, repudiando sinceramente as alegrias mundanas?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.