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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Mas, apesar de tudo, se os partidos fossem iguais, ainda vá! Assim porém, não acontece; você conquistou a sua posição naquela casa com uma longa dedicação, com um esforço de todos os dias e de todos os instantes; você enterrou ali a sua mocidade e empenhou o seu futuro; você deu tudo, tudo do que dispunha, para receber agora o capital e os juros acumulados! E o outro? o outro é simplesmente um intruso que lhe surge pela frente, e um especulador de ocasião, é um aventureiro que quer apoderar-se daquilo que você ganhou! O que pois lhe compete fazer?—Repeli-lo! Fizeram-lhe todas as admoestações; ele insiste - mate-o! Qual é o direito dele? Nenhum! Um negro forro à pia não pode aspirar à mão de uma senhora branca e rica! E um crime! é um crime, que 0 facínora quer, a todo transe, perpetrar contra a nossa sociedade e especialmente contra a família, do homem a quem você se dedicou, uma família, que, por bem dizer, já é sua, porque o Manuel Pedro tem sido para você um verdadeiro pai, um amgo sincero, um protetor que devia merecer-lhe, ao menos, o sacrifício que você agora duvida fazer por ele! E uma ingratidão! nada mais, nada menos! Mas a justiça divina, seu Dias, nunca dorme! Deus tentou fazer de você um instrumento dos seus sagrados desígnios, e você se recusa Muito bem! Eu com isso nada mais tenho! é lá com a sua consciência!... Lavo as mãos! Como sacerdote, e como amigo do seu benfeitor, já fiz e já disse o que me cumpria; o resto não me pertence! Faça o que entender!

— Sim... mas...

— Apenas lhe observo o seguinte: ainda mesmo que Raimundo não consiga realizar o casamento com Ana Rosa, o que aliás é impossível, porque ela é maior e o outro tem por si a justiça, fique certo de que, enquanto viver aquele homem, a mãe do filho dele nunca fará o menor caso de você Isso é o que lhe afianço!

— Mas o pai pode obrigá-la a casar comigo.

— Não seja pedaço de asno, que uma rapariga naquelas condições não se casa senão por gosto próprio! mas, quando assim não fosse, aceitando a hipótese absurda de que o pai a obrigasse, isso então seria muito pior para você! Era só o Raimundo dizer, em qualquer tempo, a Ana Rosa “Vem cá!” e ela, a sua esposa, meu caro amigo, seguia-o logo, como um cachorrinho! Você sabe lá o que é a mulher para o primeiro homem que a possui, principalmente quando ele a emprenha?... E um animal com dono! Acompanha-o para onde ele for e fará somente o que ele bem quiser! E um autômato! Não se pertence! Não tem vontade sua! Casada com outro? Que importa! há de correr atrás do amante, segui-lo por todas as degradações! há de rir-se à custa do pobre marido! cobri-lo de vergonhas! há de ser a primeira a chamar-lhe nomes! Você, seu palerma, servirá unicamente para apimentar o prazer dos dois, dar-lhe um travo picante de fruto proibido, de pecado! E calcule, por um instante, as terríveis consequências da sua covardia; não pára aqui a negra cadeia das vergonhas que o esperam! Raimundo há de, mais cedo ou mais tarde, aborrecer da amante, como a gente se aborrece de tudo que é ilegal; passada a quadra das ilusões, desaparecerá o ardor que o prende a Ana Rosa e todo o seu sonho será conquistar uma posição brilhante na sociedade pois bem, desde que ele não possa associar a amiga às suas aspirações, às suas glórias políticas e literárias, ela se converterá num obstáculo à sua carreira, num estorvo para o seu futuro, num trambolho, a que ele, na primeira ocasião dará um pontapé, substituindo-a por uma esposa legitima, de quem tire partido para subir melhor! Então, Ana Rosa passará à segunda mão, depois à terceira, à quarta, à quinta; até que, por muito batida, resvale no lodo dos trapiches, na taverna dos marujos, em todo lugar, enfim, onde possa vender-se para matar a fome! E lembre-se bem que ela, por tudo isto, nunca deixará de ser sua mulher, sua senhora, recebida aos pés do altar, em face de Deus e dos homens! Ora diga-me pois, seu Dias, não lhe parece que evitar tamanhas calamidades é servir bem ao nosso criador e aos nossos semelhantes?... Ainda duvidará que pratica uma boa ação, removendo a causa única de tanta desgraça?.. Vamos, meu amigo, não seja mau, salve aquela ovelha inocente das voragens da prostituição! Salve-a em nome da igreja! em nome do bem! em nome da moral!

E o grande artista levantou os braços para o céu, exclamando em voz chorosa

— Quis talia fando tempera a lacrymis?...

Dias escutava-o concentrado. O cônego prosseguiu, mudando de tom:

— Viremos a medalha! vejamos agora o que sucederá se você seguir o meu conselho A rapariga chora por algum tempo, pouco, muito pouco, porque eu a consolarei com as minhas palavras; depois como precisa de um pai para o filho, casa-se com você e ai está o meu amigo, de um dia para outro, feliz, rico, independente! sem contar o seu gozo intimo de haver resgatado de infalível perdição a filha do seu benfeitor, a qual deixará de ser uma mulher perdida para ser o modelo das esposas!

— É exato!

(continua...)

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