Por Aluísio Azevedo (1882)
Gregório sentia-se ir agitando pouco a pouco: tudo aquilo começava a perturbá-lo; a música, o ar quente, os perfumes de Júlia, produziam-lhe vertigens e chamavam-lhe o sangue à cabeça. O padre Beleza não tinha um momento de descanso, ria, saltava, gritava fazendo troças, pregando caçoadas às velhas, abraçando as mulheres, pisando de propósito os homens e rebolando na dança.
Todos lhe achavam graça.
Entretanto Júlia, depois que dançou a segunda vez com Gregório, lhe pediu que não reparasse naquela desordem: as festas em casa da tia eram sempre assim... Não havia meio de obter certa seriedade! Ela ia ali, porque a tia era o único parente a que estimava deveras no mundo, mas fazia com isso um verdadeiro sacrifício; aquilo era uma gente levada do diabo! Em seguida começaram a falar a respeito de Olímpia, a principio por meias palavras, depois abertamente. A viúva sabia muita coisa que lhe contara a vizinha.
— Gregório não havia procedido bem...
— A culpa foi só ela, justificou-se o rapaz; Olímpia se quisesse teria feito de mim um escravo! Eu não pensava em mais nada que não fosse nela...
— E ainda hoje, observou a outra, pelo entusiasmo com que diz isso, percebe-se que...
— Qual! respondeu ele, sacudindo os ombros. Está tudo acabado!
— Ela, porém, ainda o estima muito!...
— Não sei! É verdade que a mulher só ama quando o homem amado a despreza...
— Isso são histórias! contradisse Júlia. O senhor, se não gosta mais dela, é porque gosta de outra!...
— Juro-lhe que não! afirmou vivamente Gregório, lançando sobre a viúva um olhar que era já um programa.
Ela havia compreendido perfeitamente o efeito que produzia no rapaz, e não procurou destruí-lo. As mulheres têm sempre um gostinho muito particular em possuir um homem amado pelas outras.
Quando, às seis horas da manhã, dissolvia-se a festa, e cada um procurava às tontas o seu chapéu e a sua bengala, Júlia e Gregório invadiram um pequeno quarto que ficava ao lado da varanda e, na febre de achar os chapéus, seguraram duas vezes por engano as mãos um do outro e, por estar o quarto ainda escuro, cremos que os seus lábios também se esbarraram.
Gregório saiu palpitante de esperanças.
O diabo era a vizinhança de Olímpia e o fato de freqüentar esta a casa da viúva. Oh! mas tudo se haveria de arranjar. Gregório estava muito satisfeito com a sua nova conquista: notava em Júlia certa graça desdenhosa e satânica, um modo petulante de dizer liberdades, uma sem-cerimônia peculiar às atrizes, uma espécie de encantadora malignidade, que a filha do comendador nunca possuíra.
E já no dia seguinte principiou ele a formar o seu plano de batalha. Fez-lhe uma visita, mas a viúva, muito ao contrário do que esperava o assaltante, recebeu-o friamente e não insistiu para que se demorasse.
Foi a primeira esporada. Gregório saltou. Depois da faísca, a explosão seria fatal.
Principiou a persegui-la por toda a parte, a escrever-lhe cartas apaixonadas, a pedir-lhe ternura por amor de Deus.
Nesse tempo morava ele em Santa Teresa.
Uma noite, mal havia chegado à casa, quando sentiu parar à porta uma carruagem e logo em seguida alguém que subia apressadamente a escada.
Era Olímpia. Gregório a reconheceu imediatamente e fê-la entrar.
Vinha ofegante, pálida de raiva, com a fisionomia endurecida por qualquer grande contrariedade.
Era a primeira vez que se animava a tanto; nunca havia penetrado em casa de um rapaz. De sorte que, logo depois dos primeiros passos, toda a energia que ela trazia engatilhada para fulminar o pérfido amante, rebentou em soluços. Gregório correu a socorrê-la; foi repelido com um murro.
— Deixa-me! exclamou ela. E tirou da algibeira uma das ultimas cartas dirigidas por ele à viúva.
— Você é um infame!
Gregório estava perplexo e achava tudo aquilo muito estranho. Havia já seis meses que ele se não entendia com Olímpia. Ela, da última vez em que estiveram juntos, tratara-o mal... Que diabo queria então tudo aquilo dizer??... Porventura era ele casado para ter de dar contas dos seus atos!? Se escrevia cartas era porque assim o entendia! Ora essa!
Olímpia não teve uma palavra para lhe opor. Gregório nunca a tratara daquele modo. Até aí sempre lhe dispensara delicadeza e consideração.
— A senhora é que fez muito mal em vir cá! disse ele, passeando agitado pelo quarto. Não sei o que a autoriza a supor que ainda existe alguma coisa entre nós dois!
— Têm razão! respondeu Olímpia, afastando-se, na esperança de que ele a chamasse.
Mas Gregório contentou-se em fazer um gesto de despedida.
Ela, assim que se convenceu de que o amante não a ia buscar, voltou sorrindo humildemente.
Já não chorava, nem parecia contrariada.
Quando chegou junto de Gregório, atirou-se-lhe nos braços e principiou a soluçar com a cabeça pousada no colo do rapaz.
Ele, comovido, beijou-a na face.
As pazes estavam feitas.
CAPÍTULO XXX
ULTIMO CAPITULO
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.