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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

As portas das casa comerciais atulhavam-se de gente; pelas janelas os dentistas, das costureiras e dos hotéis, surgiam com o mesmo alvoroço, cabeças femininas de todas as graduações: - senhoras que andavam em compras, raparigas que estavam no trabalho, professoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual sorriso de pasmo, olhares incendiados, bocas entreabertas a balbuciar o nome de Amâncio. Baraços de carne branca apontavam para ele num tilintar nervoso de braceletes.

— É aquele! Diziam. - Aquele moreno, de cabelo crespo, que ali vai!

— Mamãe! mamãe! Gritavam doutro lado, — venha ver o moço rico que saiu hoje da prisão!

E flores desfolhadas choviam-lhe sobre a cabeça, e os lenços de renda borboleteavam e iam cair-lhe aos pés, como uma provocação, e olhares de amor entornavam-se das janelas entre o ruidoso e pitoresco catassol das mulheres em grupo.

E Amâncio, tonto de prazer, caminhava no meio dos amigos, abraçado a um grande ramo de flores naturais, que um preto lhe acabava de entregar e em cuja larga fita pendente via-se o nome dele em letras de ouro. Era uma lembrança de Hortênsia.

E o bando crescia sempre. O Largo de São Francisco já estava cheio e ainda a Rua do Ouvidor não se tinha esvaziado.

Ao passar pela Escola Politécnica, ouviram-se estalar foguetes e os vivas a Amâncio e à Liberdade reproduziram-se com mais veemência. Os músicos alemães responderam da porta do hotel com a Marselhesa. — A vertigem chegou então ao seu cúmulo, inflamada pela vibração corajosa dos instrumentos de metal. A Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos e travessas circunvizinhas já se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel Paris destacavam-se embandeiradas e cheias de gente, como nos dias de carnaval.

E aquela festa, ali, no coração da cidade, tomava um largo caráter de manifestação pública.

Já ninguém se entendia com o estardalhaço das vozes, da música e dos foguetes. Amâncio, carregado em triunfo nos ombros dos colegas, entrou no hotel ao som do grande hino, chorando de emoção e agitando freneticamente o seu velho chapéu de feltro, desabado e boêmio.

Francesas de cabelo amarelo desciam com espalhafato ao primeiro andar do Paris , para ver de perto o “tipo da ordem do dia”, o belo moço de que todo o Rio de Janeiro se ocupava naquele momento, — o herói daquele romance de amor que havia meses apressava tantos espíritos e sobressaltava tantos corações.

Ele, que até ali parecia sufocado e não dera palavra, como que despertou às primeiras notas da Marselhesa recobrou de súbito a sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; acenderam-se-lhe repentinamente as faces; os olhos luziram-lhe como duas jóias, e a sua voz era já segura e vibrante quando ao teto voaram as primeiras rolhas de champanha.

E, de pé, dominando a extensas mesa coberta de iguarias, — a taça erguida ao alto, o corpo torcido em uma posição teatral, desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.

* * *

Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para casa. As mão cruzadas atrás, a cabeça baixa, as sobrancelhas franzidas, com o ar trágico de um herói vencido.

Vira e ouvira tudo!

Oculto num botequim, vira passar o bando fogoso dos colegas que festejavam o amante de sua irmã; ouvira os “morra ao locandeiro! Ao pirata!” ouvira as galhofas, os risos de escárnio, que lhe atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um desespero surdo e profundo entraram-lhe no corpo, que nem um bando de corvos, para lhe comer a carniça do coração. Um duro desgosto pela vida o levava a pensar na morte, revoltado contar o mundo, contra a sociedade, contra sua família, contra a hora em que nascera.

— Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais! Sua pátria! Sua convicções! Malditas as leis todas que regiam aquela miserável existência!

Chegou lívido, sombrio, com os lábios a tremer na sua comoção mortífera.

Um silencio fúnebre enchia a casa; dir-se-ia que acabava de sair dali um enterro. Amélia chorava fechada no quarto e Mme. Brizard, estendida na preguiçosa, tinha a cabeça entre as mãos e meditava soturnamente. Sobre a mesa o almoço há que horas esfriava, esquecido e às moscas.

É que já sabiam do terrível desfecho do júri: — Amâncio estava livre, senhor de si por uma vez! Podendo ir para a província quando bem quisesse, porque, além de tudo, nem o dinheiro lhe faltava!...

— E eles que ali ficassem, a roer um chifre! - sem recursos, e obrigados a ocupar aquela casa, que era o preço de sua desonra comum.

— Mas, o culpado foste tu e só tu! Berrou de supetão Mme. Brizard, erguendo-se da cadeira com um movimento de cólera. — Se me tivesses ouvido, não ficarias agora com essa cara de asno. “Que tudo quer, tudo perde!” Foi bem feito! Foi muito bem feito, para que, de hoje em diante, prestes mais atenção ao que te digo! — Agora- pega-lhe com trapos quentes!

O marido deixou cair a cabeça sobre o peito e quedou-se a fitar o chão. Mme. Brizard, depois de voltear agitada pela sala acrescentou:

(continua...)

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