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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ao chegar à rua do Rezende, entregaram­lhe uma carta, que ele arremessou para o lado, sem abrir, e daí a pouco ficava assentado, de pedra e cal que Estela seria reclamada no dia seguinte às irmãs de caridade pela família Silva.

Só na ocasião de recolher­se à cama é que o rapaz abriu afinal a carta, e leu o seguinte:

"A condessa Vésper comunica ao Sr. Gustavo Mostella que está às ordens dele amanhã às três horas da tarde, Largo do Rocio nº ..."

XLII

RAPINA

Em caminho da casa de Ambrosina, Gustavo ia formulando intimamente as melhores considerações sobre os seus próprios atos. Sentia esse lisonjeiro gozo que experimentamos ao fazer bem a qualquer pessoa, e ao qual, sem intenções paradoxais, se poderia chamar egoísmo da bondade ou desvanecimento do altruísmo.

Calculava de si para si que iria entestar com uma pantomimeira impertinente e orgulhosa, ele, porém, ia bem prevenido, e não desanimaria por isso, nem se daria por achado — havia de entregar­lhe a carta da pobre lavadeira, declarando francamente o deplorável estado em que viu a infeliz, e obrigando, com ríspidas razões, à famigerada Condessa, a mostrar­se menos desumana com a desgraçada que a trouxe nas entranhas.

E até, como sucedera noutro tempo com Gabriel em circunstâncias, aliás, bem diversas, punha já em ordem os seus belos raciocínios de poeta, formava em linha de batalha os esquadrões dos implacáveis e persuasivos argumentos, com que havia de vencer aquele duro coração de libertinha, e arrastá­lo à compreensão dos deveres filiais, por entre uma brilhante escolta de objetivos em brasa.

E caminhou firme para o alcácer inimigo, cuja porta atravessou impávido sendo introduzido lá em cima à voluptuosa saleta de espera por uma francesa velha e arrebicada, que lhe deu familiarmente o tratamento de "Cher mignon".

Gustavo, depois de medir desdenhosamente de alto a baixo, disse­lhe em tom de ordem que fosse prevenir à dona da casa da sua presença ali. E, fechando a cara e dilatando os lábios, soprou com força, como se atiçasse o morrão que levava aceso para lançar fogo à sua artilharia.

Mas, ao primeiro olhar da inexpugnável Ambrosina, que não levou muito a vir, todo esse arsenal de guerra se dispersou pelo ares, que nem um frouxel de paina ao sopro de inesperado tufão.

Ela, entretanto, parecia indiferente, e se alguma cousa transpirava dos seus gestos e da sua fisionomia, era uma formal amabilidade, cujo frio sorriso não passava dos dentes.

O noivo de Estela, embatucado e fulo de acanhamento, gaguejou algumas palavras de cortesia e entregou­lhe a carta de Genoveva.

A Condessa o fez passar para a mesma antecâmara em que recebera o Médico Misterioso, ofereceulhe uma cadeira e foi sentar­se a um canto, no divã, a romper vagarosamente o sobrescrito da carta.

Gustavo observava­a numa atitude cerimoniosa. Por mais esforços que fizesse, não conseguia pôr­se à vontade defronte daquela mulher deslumbrante, que o dominava com o seu ar de imperatriz romana. Sentia­se oprimido por uma irresistível e humilhante fascinação.

Vésper estava com efeito bela. Os braços e a garganta surgiam­lhe de uma confusão de rendas claras, como de um floco de mitológicas espumas do oceano. A cabeça, rica de contorno, destacava­se no enrodilhado artístico dos cabelos. Os olhos, mesmo quando fechados, transluziam os sutis fulgores da volúpia, e a boca o cruel segredo das paixões calculadas, das febres previstas e dos grandes delírios oficias do amor.

Ao terminar a leitura, ergueu­se altiva, e perguntou ao portador da carta se sabia quem a tinha escrito.

— Um seu criado... disse timidamente o rapaz.

— O senhor? Mas nesse caso, entre o senhor e minha mãe há velhas relações?...

— Absolutamente, minha senhora. Eu mal a conheço!...

— E ela confiou­lhe tudo o que vem escrito?!...

— Sua mãe havia pedido a uma vizinha que lhe fizesse a carta; a vizinha não pôde servi­la e encarregou­me por sua vez de...

— Ó senhores, com efeito! Mas então, minha mãe não teve o menor escrúpulo de envolver um estranho nos mistérios de minha vida?

Gustavo sorriu.

— Descanse, disse ele, erguendo­se; nunca terei ocasião de falar sobre semelhante cousa!...

— Hein?! perguntou ela, virando rapidamente a cabeça.

— Digo que não terei ocasião de falar no que me confiou a senhora sua mãe...

— E o que quer dizer o senhor com isso?

— Oh, minha senhora! quero dizer que não me meto com a vida alheia.

E o rapaz acrescentou, depois de uma pausa, durante a qual Ambrosina parecia meditar:

— O acaso conduziu­me ao lado de sua mísera mãe; ao vê­la fiquei comovido, ofereci­me, não só para escrever essa carta, como para a entregar pessoalmente e exigir a resposta. Se a senhora, porém, não estiver por isso, eu direi à pobre lavadeira que se console, e veremos por outro lado... Sempre há de aparecer algum hospital que a receba por... compaixão.

(continua...)

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