Por Inglês de Sousa (1891)
Passeava agitado pelo quarto, receando a macieza da rede, tentadora como braços abertos de mulher bonita; já vencido, mas lutando ainda. Reinava silêncio na casa. A família já estava acomodada.
Da outra banda do igarapé vinha um cheiro forte de baunilha e de cumari, que misturando-se à exalação das flores das laranjeiras do terreiro formava um perfume afrodisíaco que entrava pelas portas dentro e lhe subia ao cérebro, para o embriagar e tirar-lhe o último lampejo de razão que o esclarecia na luta travada com a sua carne desejosa e virgem.
Passou a noite toda de pé, com medo de se ir deitar, como se a rede o atraísse para o pecado; ora desesperado, sentindo a antecipação das penas do inferno, ora ardendo em desejos viris, pensando em abrir a porta, sair para a varanda e entrar à força no quarto da Clarinha, ora caindo em desânimo, maldizendo a covardia do Macário, que o incitara a fugir aos mundurucus do ubá, cujas flechas lhe teriam tirado a vida em estado de graça; maldizia também o encontro que fizera do João Pimenta e do Felisberto, a idéia que tivera de os acompanhar em vez de se deixar morrer de fadiga e de febre à margem do Canumã na vasta solidão do deserto. Morresse flechado por índios, em caminho de sua gloriosa missão, ou de cansaço e fome à margem de um rio desabitado, teria cumprido o seu destino na terra, deixaria um nome honrado e alcançaria a palma que não se nega aos mártires de Cristo; e Deus não deixaria de levar-lhe em conta a mocidade, os anos decorridos sem que jamais tivesse levado aos lábios a taça inebriante do prazer... Morreria jovem, sem ter conhecido da vida senão as suas dores e desgraças, sem ter sentido um coração de mulher palpitar de encontro ao seu peito vigoroso...
A repetição desta idéia de morte prematura começava a tornar-se-lhe antipática, estranha na situação em que se achava. Tudo era calmo e repousado em derredor; através das paredes de taipa caiada, ouvia-se o ressonar tranqüilo do João Pimenta e do Felisberto, alternando a respiração em sons agudos e graves, como à porfia de quem dormiria melhor; do outro lado, do lado do quarto de Clarinha, nenhum rumor se ouvia; lá fora haviam cessado as vozes noturnas da floresta no grande silêncio da madrugada. O frescor da brisa que penetrava pelas juntas mal unidas das portas, trazia um perfume suave de flor de laranjeira. Toda a natureza repousava, tranqüila e feliz na calma de uma noite estrelada e serena. Só ele não dormia, só ele não podia ter um momento de repouso, e pensava em morrer, maldizendo a vida. E por que morrer? A rede, a alva e macia rede que fora de padre João da Mata, oferecia-lhe o regaço de puro linho lavado, cheio de promessas. Por que não dormiria, ao menos para fugir à luta incessante que o torturava? Talvez que o sono lhe aconselhasse um meio de sair daquele combate que lhe devorava a alma e o corpo, permitindo-lhe achar uma transação da consciência com o amor irresistível pela linda mameluca de cintura fina e dentes brancos. Não seria possível essa transação prudente que acabasse de uma vez com a loucura que ameaçava sepultá-lo no abismo da depravação e da morte?
A rede, de que se aproximara lentamente, sentindo nos membros lassos um torpor suave que o convidava ao sono, e um ligeiro tremor que o frio da madrugada lhe dava, continuava a oferecer-lhe o regaço de linho, lavado e branco. Dentro de poucas horas o dono da casa seguiria viagem, e o mal, se mal havia a temer, seria irremediável. Por que entregar-se a um desespero estéril, teimando em privar-se dos gozos que a natureza proporciona à mocidade?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.