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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Manuel deixou-se cair numa cadeira, abafando nas mãos os seus soluços; Maria Bárbara continuou a praguejar, voltando agora contra o genro todo o seu desespero; e o cônego, indo ter, ora com um, ora com outro, procurava acalmá-los, prometendo arranjar tudo “Que se deixassem daquela arrelia. a situação não era também lá essas coisas!... Não valia a pena afligirem-se de semelhante modo!... Fiassem-se nele, que tudo se arranjaria decentemente!... O negócio da gravidez era uma patranha, engendrada à última hora!... Pois então, se houvesse nisso alguma verdade, a pequena não lha teria confessado?…

E daí a pouco descia a escada, rangendo nos degraus os seus sapatos de polimento.

— Aqui estou, senhor cônego, Podemos ir? Perguntou-lhe o Dias, no canto da Prensa logo que se reuniram.

— Espere! espere lá meu amigo! Para que lado seguiu o homem?

— Desceu o Beco da Prensa.

— Então temos ainda o que fazer por cá...

E dirigiu-se ao cocheiro de um carro que estacionava na esquina, falou-lhe em voz baixa, e o carro afastou-se.

— Bem, disse, tomando ao caixeiro, agora encomodarmo-nos aqui, por detrás deste lote de pipas.

— Para quê?

— Para não sermos vistos pelo cabra, quando passar.

E ficaram conspirando em voz baixa, até que Raimundo apareceu de volta na entrada do beco. Fora despedir um escaler, que estava lá embaixo às suas ordens, na praia. A luz do lampião da esquina bateu-lhe em cheio no rosto porque ele trazia o chapéu de feltro derreado para a nuca. Parou um instante, hesitando, procurou o seu cano, e afina! resolveu, com Um gesto de impaciência, descer para o lado da Praça do Comércio.

— Bom! murmurou misteriosamente o padre ao companheiro. Siga… mas em distância que não seja percebido... E, se ele demorar-se muito na rua, faça o que lhe disse! fome!

E passou-lhe, sem levantar o braço, um objeto, que o Dias teve escrúpulos em receber.

— Então?! insistiu Diogo.

— Mas...

— Mas o que?... Ora não seja besta! Tome lá!

O outro quis ainda recalcitrar, o cônego acrescentou:

— Não seja tolo! Aproveite a única ocasião boa, que Deus lhe oferece! Faça o que lhe disse - será rico e feliz! Audaces fortuna juvat!... Agradeça à Providência o meio fácil que lhe depara, e que estou vendo agora que você não merecia!... A maior parte dos homens poderosos tiveram. coitados! muito maiores provações para chegar aos seus fins! Ande daí não seja ingrato com a fortuna que o protege!... Também era só o que faltava, que, por um instante de medo infantil, você perdesse o trabalho de tantos anos!.. afianço

lhe, porém, que ele não teria para com você a mesma hesitação, como há de acontecer naturalmente te…

— Vossa Reverendíssima acha então que?…

— Acho não, tenho plena certeza! “Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lha morre!” Mas, quando mesmo ele não o mate, será isto razão para que você não o extermine?… Ora, diga-me cá, mas fale com franqueza! você está ou não resolvido a casar com minha afilhada?...

— Estou sim senhor.

— Bem! Pois lembro-lhe somente que um homem de cor, u n mulato nascido escravo desvirtuou a mulher que vai ser sua esposa, e isto, fique sabendo representa para você, muito maior afronta que um adultério! Assiste-lhe, por conseguinte, todo o direito de vingar a sua honra ultrajada; direito este que se converte em obrigação perante a consciência e perante a sociedade!

— Mas...

— Imagine-se casado com Ana Rosa e o outro no gozo perfeito da vida; a criança, já se sabe, parecida com o pai... Pois bem! lá chega um belo dia em que o meu amigo, acompanhando sua família, topa na rua, ou dentro de qualquer casa, com o cabra! . Que papel fará você, seu Dias?. com que cara fica?. O que não dirão todos?... e vamos lá, com razão, com toda a razão! E a criança? a criança, se continuar a viver, o que não julgará do basbaque que a educou? .. Sim, porque, convença-se de uma coisa! com a existência de Raimundo, o filho deste virá fatalmente a saber de quem descendeu! Não faltará quem lhe declare!

— Isso é!

(continua...)

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