Por Aluísio Azevedo (1882)
Sobre a mesa enorme, que se havia arranjado especialmente para aquela ocasião e que parecia entalada na estreiteza da sala, destacavam-se as grandes peças de forno. Via-se o leitão inteiro com os dentes à mostra e os olhos substituídos por azeitonas, ao lado o peru empertigava o peito recheado; tortas, do tamanho da aba do chapéu do padre Beleza, recamavam a branca toalha de fustão. As garrafas cintilavam alegremente; liam-se vistosos rótulos de Bordeaux, Porto e descobriam-se garrafas de vinho branco, cheias de Colares e vinho virgem. As compoteiras de doce de caju, abacaxi, e laranja, jaziam meio escondidas nos tinhorões dos grandes jarros dê porcelana. Os quartos de carneiro, as galinhas assadas e os pastelões esperavam resignadamente a hora do ataque. Um cheiro farto e gorduroso de comida enchia o ambiente.
A dona da casa disse em voz alta a Gregório que se fosse assentando à mesa. Ali não havia cerimônia! Ela, como quase todos os atores antigos, tinha o costume de falar sempre em voz alta.
Gregório assentou-se.
As mulheres olharam logo para ele com interesse. O seu pequeno rosto branco embelezado de frescura e de mocidade, sobressaía ali, como uma coisa rara e bem trabalhada. O rapaz fazia esforços supremos envergonhado da natural distinção das suas maneiras.
Os convidados não cabiam todos à mesa; Gregório ergueu-se duas vezes para oferecer o seu lugar, mas de ambas o obrigaram a ficar assentado, empurrando-o pelos ombros. Sentia-se ele cada vez mais constrangido no meio daquela gente mesclada e ruidosa; fusão de família e boêmia, argamassa de sorrisos discretos, olhares pundonorosos, gestos cheios de escrúpulo e amplos movimentos de caixa de teatro misturados com frases de botequim e pilhérias de sociedade carnavalesca.
Luzia Pereira, a dona da casa, apesar de idosa, ainda mostrava ter sido bonitona na sua época.
Fora atriz por muitos anos, enviuvara de um ator do tempo de João Caetano e vivera sempre entre gente de teatro. Era em geral estimada como mulher honesta e querida por muitas famílias do Rio de Janeiro.
A gordura desformara-lhe um pouco os membros e a fazia parecer mais baixa e menos elegante; mas os olhos brilhavam ainda com o fulgor dos outros tempos, e os lábios conservavam o fino sorriso espiritual, com que ela arrebatara as platéias de 1840.
Luzia Pereira era tia legítima da nossa bem conhecida Júlia Guterres, que representava uma das principais figuras do batizado.
A atmosfera tornava-se mais e mais abafada. O calor, anunciativo da tempestade que se formava lá fora, quase que não consentia no agrupamento dos comensais naquela sala estreita e coagida pelo teto. Das janelas, abertas sobre o quintal, não entrava o menor sopro de ar novo; as luzes do petróleo agravavam a situação.
Gregório desfazia-se em finezas com Júlia Guterres, que lhe ficara ao lado direito, mas impacientava-se por sair daquele forno.
Principiaram a comer. Não havia método no jantar; algumas pessoas iam logo se servindo dos assados antes de tudo; outras tomavam à sopa os vinhos da sobremesa. Mas todos os copos se esvaziavam alegremente. Foi preciso fechar as janelas porque começavam a cair as primeiras gotas do aguaceiro, que lá fora trovejava já sobre as montanhas.
Redobrou então o calor. Um sujeito gordo erguera-se, pedindo que o acompanhassem em um brinde a uma pessoa, que se achava presente, muito distinta e digna de todas as considerações.
Fez-se logo um respeitoso silêncio, e o orador declarou que se referia a D. Luzia Pereira. Seguiu-se uma enfiada de elogios, e os hurras rebentaram de todos os lados.
Desde então os brindes apareciam sem intervalo. Os comensais erguiam-se a dar vivas, e estendiam o braços, oferecendo os copos aos vizinhos, para tocar.
Ainda não estava terminado o jantar, quando Gregório pediu licença e se retirou ofegante para a sala de visitas.
A chuva percutia com força nas vidraças e no telhado. O rapaz assentou-se no canapé e ficou a olhar para as fotografias suspensas da parede.
Lá estava o João Caetano, o Martinho, o Costa, e outros contemporâneos. Por um álbum, que Gregório se pôs a folhear, via-se que era enorme a família da Luzia Pereira. Algumas filhas e netos estavam presentes à festa.
Terminada a primeira mesa, assentaram-se os que ainda não haviam jantado, e a sala, onde estava Gregório, encheu-se logo de pessoas a palitarem os dentes.
Em uma alcova contígua, dez rapazes preparavam estantes de músicas e acendiam velas. Pouco depois, cada um desses dez tocavam o seu instrumento de sopro, e um grande barulho metálico, ensurdecedor, encheu totalmente a sala, impedindo qualquer conversa.
Era uma polca, composta por um dos músicos e oferecida ao pequeno que se batizara naquele dia.
Gregório foi obrigado a dançar, escolheu Júlia Guterres. Ela deixara-se conduzir com certo desprendimento gracioso. Era louca pela dança.
Quando acabou a música, houve uma carga de vivas ao autor, vivas ao batizado, vivas à dona casa. Abriram-se garrafas de cerveja nacional, e os copos espalharam-se por todos os convidados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.