Por Machado de Assis (1886)
E não pôde deixar de dizer com voz fraca, mas suficiente para que ela ouvisse:
— Deus te ouça, minha filha.
— Meu pai!
E Emília dirigiu-se para o leito do enfermo, que lhe beijou as mãos de agradecido. Esta cena repetiu-se ainda algumas vezes durante as crises da enfermidade de Vicente. À força de cuidados e de remédios Vicente pôde melhorar, e tão a olhos vistos, que um dia de manhã Emília, ao levantar-se e ao ver a fisionomia do doente, julgou que se tivesse operado um milagre.
Vicente melhorou e ficou restabelecido. O médico proibiu-lhe expressamente que voltasse tão cedo ao trabalho.
— Mas como passaremos nós? perguntou Vicente a Emília quando esta lhe comunicou as determinações do médico.
— Trabalharei eu, e com o mais que há iremos passando...
— Mas tu, trabalhares sozinha? Isso não pode ser.
— Tanto pode, que há de ser...
— Mas... Enfim, lá diz o rifão que Deus dá o frio conforme a roupa. Podia ser pior, e eu ficava aí perdido de uma vez.
— Não podia ser pior, meu pai.
— Por quê?
— Porque eu pedi à minha madrinha...
A madrinha era a mãe de Deus. Esta devoção tão cândida e tão sincera fez sorrir de contentamento ao hortelão.
— Pedi-lhe a sua saúde, meu pai, e bem vê que ela me ouviu.
— Dize-me cá, Emília, se eu morresse que farias tu?
— Morria também... Não me seria possível sobreviver-lhe. Que me restava mais neste mundo? Não é meu pai o único fio que me prende à vida?
— Pobre filha!
Esta exclamação pintava toda a situação daquelas duas criaturas, situação dolorosa e admirável, em que a vida de uma dependia da de outra, sem outra solução possível, visto que a morte de uma tirava à outra toda a esperança de felicidade e de paz. E o que era esta moléstia de Vicente? Que resultado teria no futuro daquela família? A ruína. O pecúlio feito à custa de tantas economias, de tantos trabalhos, de tantas misérias, fora absorvido com a moléstia de Vicente. Dora em diante deviam começar de novo a ajuntar o patrimônio do futuro, que era a segurança da honra e da paz. E aqueles dois Sísifos olhavam-se rindo, contentes de si e de Deus, sem repararem nas atribulações e nas fadigas porque deviam passar de novo.
Já Vicente terminara a convalescença quando recebeu uma carta de Davi. Aproximava-se o tempo marcado para a volta do poeta, e a carta fez-lhe supor que o poeta não voltaria ainda.
— Para que me escreveria se voltasse já?
Abriu a carta e leu-a:
Meu caro amigo. Dentro de pouco estarei aí e então para nunca mais fazer viagem alguma.
Nunca lhe disse que havia em minha vida alguns desgostos a respeito dos quais nunca procurava conversar? Pois saiba que um deles foi o que me trouxe cá. Ficou-me de minha mulher um filho a quem eduquei com desvelo paternal. Prometia ser até à idade dos quinze anos um modelo de retidão e de sisudez. Más companhias o perderam. Tendo chegado a uma certa idade em que o olhar paterno não podia segui-lo em toda a parte, o rapaz esqueceu as lições que eu tanto lhe ensinei e deixou-se levar pela torrente da rapaziada.
De perdição em perdição este filho chegou a sair-me de casa e a desconhecer até a minha autoridade.
Separamo-nos.
Ora, imagine que tive ultimamente um sonho e que se me afigurou ver o rapaz contrito e morigerado pedir-me a bênção paternal.
Não hesitei um momento. Vim ter ao lugar onde em natural encontrá-lo e vi a realidade do meu sonho...
Lá vou ter dentro de poucos dias. Esperem aí o velho amigo. Davi.
Conforme dizia a carta, apareceu no fim de pouco tempo o nosso poeta. O sinal da chegada de Davi foi a presença de Diógenes na horta de Vicente. O cão acompanhara o senhor.
Sabendo da presença do vizinho, Vicente lá foi ter e abraçá-lo; contou-lhe o que sofrera, os perigos de que escapara e até os atos de dedicação e amor da parte de Emília. E, concluindo a narrativa, disse Vicente:
— Enfim... já é para agradecer que me salvasse e esteja aqui livre de tudo, disposto a recomeçar os meus trabalhos... Mas, então, encontrou seu filho?
— É verdade, respondeu Davi.
— Foi um verdadeiro achado... não?
— Um achado sublime. Achei-o corrigido pelo tempo e pelas desgraças. O cadinho serviu; antes era um peralta; agora é um homem de bem.
— Ora, deixe-me abraçá-lo...
— Abrace-me... abrace-me. E a menina?
— Está boa...
— Mais alegre?...
— Vai vivendo...
— Pois eu lá hei de ir hoje... Crê que ela terá prazer em ver-me?
— Por que não?
Os dois velhos separaram-se. Quase a sair, Vicente foi chamado por Davi, que lhe disse:
— Olhe, sabe que meu filho vem amanhã?
— Ah!
— Há de ver... que rapagão!
No dia seguinte o poeta apresentou-se em casa de Vicente. Emília foi recebê-lo.
— Ora, viva! disse ela, como está? Como se deu fora estes dois meses?... Sabe que a sua ausência foi sentida como se fora a de um amigo de longo tempo?
— Desconfio...
— Pois é verdade. Então, ainda volta?
— Não. Fico de uma vez.
— Tanto melhor.
— E desde já imponho, como condição disto, um perdão de sua parte.
— Um perdão?
— É verdade: um perdão.
— Que crime cometeu?
— Ah! não sou eu o culpado... é outro... É ele.
Emília abaixou os olhos e estremeceu.
— Ele... Valentim... meu filho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.