Por Visconde de Taunay (1871)
Anunciou-se neste momento a volta do 17.° batalhão que acompanhara o velho Lopes. Era geral o desejo de assistir ao primeiro encontro do pai e do primogênito que lhe voltava aos braços.
Passando pelos postos avançados soubera o nosso guia da grande notícia.
Vinha pálido, lacrimejante, em direção ao filho que, respeitosamente, o esperava, descoberto. Não descavalgou; estendeu a destra trêmula ao filho, que a beijou; depois o velho guia deu-lhe a bênção e passou sem proferir palavra.
Foi uma cena patriarcal, e como seja o coração humano sempre sensível aos grandes lances, atônitos, olhávamos uns para os outros, como a indagar se não seria fraqueza entre soldados nem sempre poder conter as lágrimas.
Que emoção devia sentir o velho vendo o filho escapo ao inimigo! E quanta dor, ao pensar que os outros membros da família, ainda cativos, haviam perdido o mais valente defensor! Quando em tal lhe falamos tomou longa pitada e disse: "Deus tudo faz. Deus assim o quis. Fui outrora feliz, tive casa e família. Hoje durmo ao relento; estou só, e como do que a caridade dá".
— Vamos encontrar casa em Bela Vista, lhe respondemos. Tem o senhor a seu lado filho e genro. Come em companhia de amigos e até ainda é quem lhes dá a comer de seu gado.
Com melancólico sorriso meneou a cabeça, dizendo: "Nunca mais será minha a estancia do Jardim! . . . "
Entrementes, depois de haver combinado com Barbosa os meios de ainda obter gado do sogro, ordenou o Coronel que se avançasse.
CAPÍTULO VI
Em marcha. Formatura da coluna. A vista da fronteira.
Fortalecido em sua primeira resolução, não pôde entretanto, o coronel Camisão executá-la sem deixar perceber algumas das antigas hesitações. Fora ele próprio que para 13 de abril marcara a partida; adiou-se para o dia imediato, embora, desde o romper d'alva, tudo estivesse pronto e o corpo do exército em ordem de marcha. Só em hora avançada tornou conhecida a nova determinação, a tal respeito estendendo-se em explicações que a todos espantavam, provocando malignas interpretações, principalmente a propósito dos pousos, que fixara. Dispusera-os com efeito de modo que a coluna chegasse a Bela Vista, ou em suas imediações, isto é na fronteira, no sábado de Aleluia ou domingo de Páscoa, para que ali se celebrasse esta solenidade. — "Assim diziam os críticos, os tiros de peça, iniciais de nossa entrada em fogo, serão os mesmos que geralmente acompanham a cerimônia religiosa: a iniciativa da campanha será coberta pela festa".
Treze de abril foi, pois, ainda um dia perdido: gastaram-se as horas da manhã em preliminares de viagem, inteiramente supérfluos, e cujo único objetivo parecia procurar entreter os soldados. Estes, aliás, a tudo se prestavam com a melhor disposição. Fizera-se ouvir o hino nacional e uma explosão de entusiasmo o acolhera. Vários ajudantes-de-ordens se despacharam então, cada qual do seu lado, a ler uma ordem do dia. apelando para o patriotismo da coluna e a lhe relembrar a confiança nos chefes. Enérgicas aclamações estrugiram ainda, após esta proclamação, repetindo-se várias vezes: chegara ao auge a animação. No entanto caíra a noite, que se passou sem que nos houvéssemos movido. Viram todos comandante, meditativo como sempre, passear na sombra, em frente à sua barraca, por mais tempo e mais tarde do que geralmente fazia.
No dia seguinte, desfilou o corpo diante dele; com isto pouco a pouco se animou. Já a vanguarda, contudo devia dar-lhe motivos de reflexão, composta como e de homens de nossa cavalaria desmontada. E com efeito já relatamos que não tínhamos mais cavalos, todos vitimados na região de Miranda por uma epizootia do gênero da paralisia reflexa que a nós mesmos, tão cruelmente, viera provar. Quando muito pudera o serviço de faxina conservar alguns muares. Faltava-nos o elemento primordial da guerra nestes terrenos, a cavalaria; e não havia quem com isto se não impressionasse.
Malgrado a diferença de feição, a que se tinha: de resignar, nada perderam os nossos caçadores do aspecto marcial. Após eles marchava o 21.° batalhão de linha, precedendo uma bateria de duas peças raiada depois o 20.° batalhão, outra bateria igual à primeira acompanhada pelo 17.° de Voluntários da Pátria; e afinal as bagagens, o comércio, com a sua gente e material, as mulheres dos soldados, bastante numerosas.
Ocupava o gado o flanco esquerdo, com as carretas de munições de guerra e de boca, massa confusa protegida por forte retaguarda.
Tínhamos o Miranda à frente; os soldados o atravessaram; uns levantando acima d'água armas, cinturão patronas; outros sobre uma ponte volante que os engenheiros acabaram de construir, auxiliando-os neste trabalho urgente um 2.° tenente de artilharia, Nobre Gusmão, jovem oficial, cheio de inteligência, que nessa ocasião demonstrou o zelo que mais tarde sempre pôs em destaque (1).
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.