Por Bernardo Guimarães (1869)
Gonçalo, posto que não deixasse de sentir profundo abalo com aquele conflito com o seu amigo, entendeu que faria um triste papel se continuasse a ficar mudo e amuado; portanto, sopeando o mais que pôde sua emoção, saltou logo na sala com o maior desembaraço exclamando:
— Êh! com mil diabos! tens razão, compadre; viva o prazer, leve o diabo a tristeza, e vamos com a folia por diante. O que sucedeu foi uma bagatela sem importância. Não é a primeira vez, nem será a última, que se vê dois homens puxarem faca um contra outro; nós não somos crianças; e se Reinaldo entende que eu o agravei, não faltará ocasião nem lugar mais oportuno em que possa desagravar-se: não é assim, Reinaldo?
— Sem dúvida, rosnou Reinaldo com voz carregada.
— Viva a paz! viva a alegria! exclamou mestre Mateus batendo palmas. Falou quem pode: não há mais motivo de desgosto; toca a folgar. Mas agora, camaradas, caluda sobre este negócio! Não quero por modo nenhum que se saiba aí por essas ruas, que em minha casa, onde nunca houve desordens, e sempre gozou de muito boa fama, puxaram-se facas, e esteve-se em termos de ver correr sangue. O passado, passado; faça-se de conta que nada houve e toca a folgar. Olá das violas, vamos com isto!... um vai-de-roda bem esquentado!
As violas ressoaram, e a dança recomeçou, se bem que ainda um tanto fria e constrangida. Gonçalo porém dançava, palrava e gritava por todos com a maior frescura e desembaraço, como se nada tivesse acontecido. Com o seu exemplo os outros também foram pouco a pouco se animando. Quanto à Maroca, ia também gradualmente recuperando toda sua desenvoltura natural, e alardeava de novo toda a sua graça e faceirice.
Só Reinaldo, triste e taciturno a um canto, não podia dissimular a tremenda tempestade que lhe agitava o espírito, e devorava em silêncio lágrimas de raiva e desesperação.
Gonçalo pela sua parte ia-se sentindo cada vez mais subjugado pelos encantos da sedutora menina. Aquela triste pendência com um amigo, a quem gratuitamente ofendera, longe de contê-lo em seus desmandos, não foi mais que um novo incentivo que lhe fez mais vivamente cobiçar aquela beleza tão ciosamente vigiada por seu amante.
Pela primeira vez em sua vida estava disposto a desenvolver toda sua força de touro, toda sua bravura de leão, toda a sua destreza de onça, não por um mero capricho ou ostentação de valentia, mas para satisfazer uma paixão cega, que lhe rebentava na alma com a violência de um vulcão.
Este amor fatal – se é que se pode chamar amor um desejo caprichoso e brutal – junto à louca mania de querer provar a todos a força e agilidade de seu braço, extinguiram ao menos naquela noite no coração de Gonçalo todo o instinto de lealdade, todo o sentimento de amizade que ainda votava a Reinaldo.
— A Maroca hoje há de ser minha, projetou consigo o diabólico rapaz. A princípio dissera isto somente para lançar uma luva de desafio a Reinaldo, com quem ardia por travar-se séria e publicamente; mas agora era esse o mais ardente desejo de seu coração, para cuja satisfação estava disposto a sacrificar tudo. Que viessem estorvá-lo Reinaldo ou quem quer que fosse, ou toda aquela turba reunida, que ele os dispersaria como quem sacode a poeira de suas botas.
A Maroca, ou porque era ainda muito criança, ou por ser de seu natural leviana e bandoleira e não amar a ninguém, foi-se deixando facilmente seduzir pela galhardia, bravura e talvez mais pela riqueza e liberalidade de Gonçalo, que durante a dança lhe introduzira no dedo um rico anel de brilhantes prometendo-lhe ainda em segredo maiores e mais magníficos presentes.
O coração da Maroca era vário e leve, e portanto facilmente esvoaçou de Reinaldo para Gonçalo. Este, seguro das boas disposições da menina, forjou logo o mais atroz e sinistro projeto.
A noite já ia muito avançada; os galos, amiudando cada vez mais seu canto, anunciavam que estava próximo o romper do dia.
Gonçalo, consultando o relógio, que trazia preso a uma grossa cadeia de ouro, diz em voz alta:
— Três horas em ponto, meus caros; para quem mora a mais de légua de distância, já é tempo de pôr-se a caminho.
E imediatamente sem mais cumprimentos, enquanto os outros se entretinham em dançar, jogar ou conversar, abriu de manso a porta da rua, e desapareceu.
Reinaldo, que não dançava, nem bebia, nem jogava, mas acabrunhado por uma multidão de pungentes e sombrios pensamentos se assentara a um canto, viu com prazer a saída de Gonçalo. Seu peito respirou mais desafogado com o desaparecimento daquele homem fatal, que se tornava para ele um pesadelo, um espectro odioso. Levanta-se e procura com os olhos pela sala a Maroca, a fim de também convidá-la a retirar-se; por duas ou três vezes corre com a vista toda a extensão da sala, e não a vê nem na roda dos que dançavam, nem assentada em parte alguma: estremeceu, e bateu-lhe o coração de modo estranho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.