Por Bernardo Guimarães (1872)
– Quem sabe se a prima está pensando, que aquela figura é alguma coisa neste mundo. Se a prima o não conhece, conheço-o eu muito bem. Não passa de um tocador de bestas muito ordinário e muito gangolina, que tem passado a manta a meio mundo. A mim mesmo empurrou-me ele por duzentos mil-réis uma besta pêlo de rato, que não vale cem, e que vem a não servir nem para cangalha. Mesmo esse punhado de bestas, que vem tocando, a prima pensa que é dele? Qual! O biltre não é mais do que um capataz, que vem impingir o refugo da tropa do patrão aos bobos do sertão.
– E que nos importa isso, meu primo, o que sei é que ele me salvou galhardamente a vida das garras de uma onça e é motivo de sobra para que eu lhe seja eternamente agradecida, e creio que também para que o primo não abocanhe e não despreze assim um homem, que não lhe fez mal algum.
– Nenhum mal!... eu sei!.. e também que me importa a mim esse homem. Ou por sim, ou por não, amanhã ou depois, logo que ele possa montar a cavalo, hei de levá-lo para minha casa, porque é nosso hóspede, e meu tio nenhuma obrigação tem de agüentá-lo.
– Alto lá, primo! – atalhou Paulina com vivacidade;– menos essa!... temos muito mais obrigação do que o senhor, e havemos de agüentá-lo com muito prazer. Enquanto não sarar de todo, ele é nosso, e não arreda pé daqui.
– Isso era bem belo!.. e a mulada dele que lá fica à toa?... não hei de ser eu que hei de tomar conta dela. Aquele arranhão, que levou, ora bolas! aquilo sara num instante, e nestes dois ou três dias ele que trate de montar a cavalo, vá tomar conta da sua tropa, e depois... puxe para a sua terra, e passe por lá muito bem.
– Arre! primo! que ojeriza é essa que tomou com o pobre moço! pois
ele não tem camaradas, que tomem conta da tropa!...
– Muito ordinários; uma súcia de preguiçosos.
– Nesse caso mandaremos uma pessoa capaz de tomar conta da mulada; mas ele não; tão cedo não se poderá mover daqui. Coitado! perdeu tanto sangue; está tão fraco.
– Coitadinho do nhonhô cheiroso! olhem não vá morrer de fraqueza – exclamou Roberto com uma expressão de ironia e um trejeito de cara indefinível – o tal maganão, prima, parece que caiu-lhe no gosto... não quererá também guardá-lo no seio?... Prima, olhe que não fica bonito a uma moça filha-família mostrar tamanho empenho assim por um... um... pé de poeira, que ninguém sabe donde veio, nem para onde vai...
Esta grosseira reprimenda fez enrubescer até os olhos a filha do fazendeiro. O rústico primo tinha tocado do modo o mais rude e brutal em uma ferida recente, de que a menina ainda nem dava fé, e a fazia sangrar cruelmente.
Mas aquela primeira perturbação do pudor virginal para logo passou e deu lugar ao despeito e à indignação. Vermelha como lacre, e mal retendo uma lágrima, que lhe pendia da pálpebra trêmula e cintilante, levantou a cabeça com altivez e respondeu:
– Senhor meu primo, não sei quem lhe deu o direito de me repreender e regular as minhas ações!.. O senhor é muito tolo em pensar que eu lhe devo dar satisfação do que faço e do que digo. Felizmente ainda tenho pai, e é só dele e de mais ninguém que aceito repreensões, ouviu, meu primo?... Se vosmecê faz garbo de ser ingrato, eu não quero e nem posso fazer o mesmo; hei de ser sempre muito reconhecida e grata ao moço generoso e delicado que fez por mim, que lhe era inteiramente estranha e desconhecida, o que o senhor, sendo parente e amigo, não pôde ou não quis fazer.
Esta violenta apóstrofe fulminou o pobre do Roberto.
– Oh! prima da minha alma!... o que é isso?... por quem é... não se enfeze... espere... olhe, venha cá... não foi por lhe ofender que eu falei... oh! prima... pelo amor de Deus... não dê o cavaco...
Assim exclamava o desapontado primo com voz chorosa e balbuciante, enquanto a prima que voltara-lhe as costas com o mais soberano desdém, desaparecia no fundo do corredor sem lhe dar a mínima resposta.
Roberto, que com razão desconfiava de si mesmo, e tinha talvez alguma consciência do seu pouco merecimento individual, de sua imensa inferioridade em relação à sua inteligente e encantadora prima, não tinha motivo para contar muito com a afeição e o amor de Paulina. Por isso era ele ciumento como um tigre, e seu coração vivia sempre em contínuos sustos e sobressaltos.
Não podia aportar à fazenda de seu tio um mancebo, um homem qualquer de boa aparência e de algum tratamento, que não tremesse logo pelo seu tesouro, julgando que já lho queriam roubar, e que logo não voasse para lá sombrio e desconfiado a vigiá-lo com seus próprios olhos, como o jacaré de sentinela ao seu ninho.
Julgava, – e nisso tinha alguma razão, – que ninguém podia ver Paulina sem que logo morresse de amores por ela, e não desejasse a todo o custo possuí-la por esposa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.