Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Constava ele, como ainda hoje, de quatro faces octogonais. A principal, que olha para o mar, oferecia à vista três corpos separados por pilastras e com três janelas em cada um deles. Tinha um só andar, e inferiormente três pórticos de pedra mármore branca, sendo o do centro formado por duas colunas rematadas superiormente por graciosas cambotas, e os dos laterais mais estreitos e de forma vulgar. De um e outro lado destes, abriam-se janelas de peitoril. Cada um dos pórticos descansava sobre uma escadaria própria, de mármore branco.
A face do norte apresentava, ao ligar-se com a anterior descri ta, um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril. No pavimento superior, havia vinte e quatro janelas como as da fachada principal.
Na face do sul, que olha para o atual paço da Câmara dos Deputados, havia, além do outro pórtico, vinte e três janelas de peitoril e mais uma porta para serviço particular, e no pavimento superior vinte e três janelas, das quais sete eram de peitoril e colocadas quase a meio da fachada.
A face do fundo apresentava nove janelas de sacada no andar superior, e inferiormente um pórtico ladeado por quatro janelas de peitoril.
A entrada do palácio era nobre: duas filas de colunas conduziam à escada, que agora é nobre, também constando de dois lances no mesmo sentido e outros dois em sentido oposto. Como era, porém, no tempo do conde de Bobadela, não sei: não nos ficou memória da escada primitiva, sem dúvida porque no século passado ainda não se conhecia no Brasil a importância extraordinária que tem uma boa escada.
Depois do conde de Bobadela, chegou a seu tempo a vez do vice-rei conde de Resende aumentar as proporções do palácio. O primeiro, como simples governador, tinha-se contentado com um só andar, além do pavimento inferior. O conde de Resende, que era vice-rei, elevou-se a maior altura, e fez construir um segundo andar de doze janelas de sacada que se vê ao meio do primeiro da face do norte.
Abro um parêntesis nesta descrição, que não me custa nada, porque apenas tenho o trabalho de copiá-la de um livro cujo título não declaro, para ver se passo por autor da obra, e interrompendo por momentos o fio do discurso, entro em certas explicações que não me parecem desnecessárias.
Visto que, com as obras dos dois condes, o palácio já tem não menos de cento e vinte e cinco janelas, convém dizer o que se via nesse tempo mais próximo a elas.
Da face principal via-se o mar, isso já ficou dito; da face do norte via-se o chafariz ainda no meio da praça, e já então, ou mais tarde, a casa dos Teles defronte. Os Teles foram homens notáveis no Rio de Janeiro pela sua riqueza e pela sua posição. A sua fama ficou perpetuada por um arco, que tomou o nome deles, e que não é mais do que um passadiço. A face do fundo namorava o convento dos carmelitas, que um dia havia de acabar por conquistar. A face do sul, enfim, tinha em sua frente a casa da câmara e cadeia, que é hoje o paço da câmara dos deputados, e além dessa, a casa da ópera, que se tornou uma dependência do palácio.
Ainda aqui não fecho o parêntesis.
Preciso dizer quem morava na casa dos governadores e dos vice-reis; pois que, além deles, mais alguém se achava estabelecido debaixo do mesmo teto.
Moravam com eles a justiça e a fazenda.
Os vice-reis ocupavam mais de meio da galeria superior, além do segundo andar, para o lado da praça.
Para o mesmo lado, todo o resto da casa até ao canto fronteiro ao convento do Carmo servia de assento ao tribunal da relação.
No pavimento inferior e sob esses domínios da relação ficava a fábrica moedal, como a chama Pizarro, e o quarto do canto que olha por um lado para a casa da câmara, e por outra para o convento dos carmelitas, era habitado pelo provedor da moeda.
Estava, por assim dizer, todo o governo da terra reunido no mesmo ponto, e a um grito do vice-rei levantar-se-iam a relação com a espada de Astréia, a câmara municipal, que representa o povo, o provedor da moeda, que forjava o encanto do mundo, e até podia acudir o carcereiro da cadeia com a competente guarda.
E para tudo isso, bastava um grito. Hoje grita-se horas inteiras, de noite, nas ruas da cidade, e é um milagre, quando aparece a patrulha!
Era agora ocasião de fechar o parêntesis que abri ainda há pouco. Acho-me, porém tão fatigado que suponho conveniente deixá-lo ainda aberto, enquanto descanso.
II
Fiz muito bem não fechando o parêntesis que abri ao terminar o meu artigo precedente.
Antes de prosseguir na descrição cronológica do palácio imperial, preciso dar ainda algumas explicações que se referem aos costumes do tempo dos vice-reis.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.