Por José de Alencar (1853)
Razão, pois, tinha Ayres de Lucena, que toda a festa a esteve adorando, sem carecer de altar, e tão absorto, que de todo esqueceu o lugar onde se achava, e o fim que ali o trouxera.
Só quando, terminada a festa, elle sahia com a familia de Duarte de Moraes, acudiu-lhe que não rezára na igreja, nem rendera graças á Senhora da Gloria por cuja milagrosa intercessão escapára a menina da cruel enfermidade.
Era tarde porém; e si passou-lhe pela mente a idea de tornar á igreja para reparar seu esquecimento, o sorriso de Maria da Gloria arrebatou-lhe de novo o espirito n'aquelle enlevo, em que o tivera preso.
Depois da doença da menina dissipára-se o enleio que ella sentia na presença de Ayres de Lucena. Agora com a chegada do corsario, em vez de acanhar-se, ao contrario expandia-se a flôr de sua graça, e desabrochava em risos, embora roseados pelo pudor.
Uma tarde que passeiavam os dois pela ribeira, em companhia de Duarte de Moraes e Ursula, Maria da Gloria, vendo embalar- se airosamente sobre as ondas a escuna, soltou um suspiro e voltando-se para Lucena, disse-lhe:
— Agora tão cedo não vai ao mar!
— Porque ?
— Deve descançar. .
— Sómente por isso ? perguntou Ayres desconsolado.
— E tambem pelas saudades que deixa aos que lhe querem, e pelos cuidados que nos leva. O pai que diz? Não é assim?
— Certo, filha, que o nosso Ayres de Lucena já tem feito muito pela patria a pela religião, para dar-nos tambem aos amigos alguma parte da sua existencia.
— Toda vol-a darei d'ora avante; ainda que tenha eu tambem saudades do mar, das noitadas de bordo, e d'aquelle voar nas azas da borrasca, em que o homem se acha face a face com a colera do céo. Mas, pois, assim o querem, seja feita a vossa vontade.
Estas ultimas palavras proferiu-as Ayresolhando para a menina.
— Não se peze d'isso, tornou-lhe ella; que em lhe apertando as saudades, embarcaremos todos na escuna, e iremos correr terras, onde nos levar a graça de Deus e de minha Madrinha.
XII
O MILAGRE
Correram mezes, que Ayres passou na doce intimidade da familia de Duarte de Moraes, e no enlevo de sua admiração por Maria da Gloria.
Já não era o homem que fôra; os prazeres em que outrora se engolfava, de presente os aborrecia, e tinha vergonha da vida dissipada que levára até ali.
Ninguem mais o via por tavolagens e folias, como nos tempos em que parecia sofrego de consumir a existencia.
Agora, si não estava em casa de Duarte de Moraes, perto de Maria da Gloria, andava pelas ruas a scismar.
Ardia o cavalheiro por abrir seu coração áquella que já era d'elle senhora, e muitas vezes fôra com o proposito de falar-lhe do seu affecto.
Mas na presença da menina o desamparava a resolução que trazia; e sua voz affeita ao commando, e habituada a dominar o rumor da procella e o estrondo dos combates, balbuciava timida e submissa uma breve saudação.
Era o receio de que a menina voltasse á esquivança de antes, e viesse a tratal-o com a mesma reserva e acanhamento que tanto o maguava então.
Não se apagára de todo n'alma do corsario a suspeita de ser o affecto de Antonio Caminha bem acolhido, sinão já retribuido, por Maria da Gloria.
É, certo que a menina tratava agora o primo com afastamento e enleio, que mais se manifestava quando este a enchia de attenções e finezas.
Ora Ayres que se julgava aborrecido por merecer um tratamento semelhante, agora que todas as effusões da gentil menina eram para elle, desconfiava d'esse acanhamento, que podia encobrir um timido affecto.
Assim é sempre o coração do homem, a revolver-se no constante sere não ser em que se escôa a vida humana.
De sahir ao mar, era cousa em que Ayres já não tocava aos marujos da escuna, que mais ou menos andavam ao corrente do que havia. Si alguem lhes falava de fazerem-se ao largo, respondiam a rir, que o commandante encalhára n'agua doce.
Muito tempo já era passado depois de sua ultima viagem, quando Ayres de Lucena, querendo acabar com a incerteza em que vivia, animou-se a dizer á filha adoptiva de Duarte de Moraes, uma noite ao despedir-se d'ella:
— Maria da Gloria, tenho um segredo para contar-lhe.
O labio que proferiu estas palavras era tremulo, e o olhar do cavalheiro retirou-se confuso do semblante da menina.
— Que segredo é, senhor Ayres ? respondeu Maria da Gloria tambem perturbada.
— Amanhã lh'o direi.
— Olhe lá!
— Prometto.
No dia seguinte por tarde encaminhou-se o corsario para a casa de Duarte de Moraes; ia resolvido a declarar-se com Maria da Gloria e confessar-lhe o muito que a queria para sua esposa e companheira.
Levava o pensamento agitado e o coração inquieto como quem vai decidir de sua sorte. Ás vezes apressava o passo, na sofreguidão , de chegar; outras o retardava com receio do momento.
Á rua da Misericordia encontrou-se com um ajuntamento, que o fez parar. No meio da gente via-se um homem idoso, com os cabellos já grisalhos da cabeça e da barba tão longos, que lhe desciam aos peitos e caíam sobre as espaduas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.