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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Almoças outra vez? perguntou Tito. 

- Não. 

- Pois então vais ver como se come. 

Tito sentou-se à mesa; Azevedo estirou-se num sofá. 

- Onde foste? perguntou Tito. 

- Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é indiferente, para apreciar e ver aquilo que faz a felicidade íntima do coração. 

- Ah! sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razão do meu lado. 

- Talvez. Apesar de tudo, quer-me parecer que já intentas entrar na família dos casados. 

- Eu? 

- Tu, sim. 

- Por quê? 

- Mas, dize, é ou não verdade? 

- Qual, verdade! 

- O que sei, é que uma destas tardes em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília. 

- Deveras? perguntou Tito mastigando. 

- É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas. 

- Concluíste mal. 

- Mal? 

- Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho? Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...

- Mas enfim, alguma cousa há por força... Serás capaz de me dizeres o que é? 

- Homem, podia dizer-te alguma cousa se não fosses casado... - Que tem que eu seja casado? 

- Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem um para o outro a bolsa das confidências. Sem pensares, podes deitar tudo a perder. 

- Não digas isso. Vamos lá. Há novidade? 

- Não há nada. 

- Confirmas as minhas suspeitas. Gostas da Emília. 

- Ódio não lhe tenho, é verdade. 

- Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?... 

- Sim; é natural que se embale dez vezes por dia na lembrança dos dous maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro... 

- Não é dessas... 

- Afianças? 

- Quase que posso afiançar. 

- Ah! meu amigo, disse Tito levantando-se da mesa e indo acender um charuto, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudência discreta, e a cega confiança não é lícito duvidar, a escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a respeito de Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos conhecemos, e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos, mas tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que são necessárias à exceção. Que sabes tu? 

- Realmente, eu não sei nada. 

"Não sabes nada!" disse Tito consigo.

- Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fora de propósito. 

- Se me falas outra vez em casamento, saio. 

- Pois só a palavra? 

- A palavra, a idéia, tudo. 

- Entretanto, admiras e aplaudes o meu casamento... 

- Ah! eu aplaudo nos outros muitas cousas de que não sou capaz de usar. Depende da vocação... 

Adelaide apareceu à porta da sala de jantar. A conversa cessou entre os dous rapazes. 

- Trago-lhe uma notícia. 

- Que notícia? perguntaram-lhe os dous. 

- Recebi um bilhete de Emília... Pede-nos que vamos lá amanhã, porque... 

- Por quê? perguntou Azevedo. 

- Talvez dentro de oito dias se retire para a cidade. 

- Ah! disse Tito com a maior indiferença deste mundo. 

- Apronta as tuas malas, disse Azevedo a Tito. 

- Por quê? 

- Não segues os passos da deusa? 

- Não zombes, cruel amigo! Quando não... 

- Anda lá... 

Adelaide sorriu ouvindo estas palavras. 

Daí a meia hora Tito subiu para o gabinete em que Azevedo tinha os livros. Ia, dizia, ler as Confissões de Santo Agostinho. 

- Que repentina viagem é esta? perguntou Azevedo à sua mulher.

- Tens muito empenho em saber? 

- Tenho. 

- Pois bem. Olha que é segredo. Eu não sei positivamente, mas creio que é uma estratégia. 

- Estratégia? Não entendo. 

- Eu te digo. Trata-se de prender o Tito. 

- Prender? 

- Estás hoje tão bronco! Prender pelos laços do amor... 

- Ah! 

- Emília julgou que deve fazê-lo. É só para brincar. No dia em que ele se declarar vencido fica ela vingada do que ele disse contra o sexo. 

- Não está mau... E tu entras nesta estratégia... 

- Como conselheira. 

- Trama-se então contra um amigo, um alter ego. 

- Tá, tá, tá. Cala a boca. Não vás fazer abortar o plano. 

Azevedo riu-se a bandeiras despregadas. No fundo achava engraçada a punição premeditada ao pobre Tito. 

A visita que Tito disse ter de fazer à viúva naquele dia, não se realizou. 

Diogo, que apenas saíra da casa de Azevedo, ciente das intenções da viúva, fora para casa desta esperar o rapaz, embalde lá esteve durante o dia, embalde jantou, embalde aborreceu a tarde inteira tanto a Emília como à tia; Tito não apareceu. 

Mas, à noite, à hora em que Diogo, já vexado de tanta demora na casa da moça, tratava de sair, anunciou-se a chegada de Tito. 

Emília estremeceu; mas esse movimento escapou a Diogo. Tito entrou na sala onde se achavam Emília, a tia, e Diogo. - Não contava com a sua visita, disse a viúva.

- Eu sou assim; apareço quando não me esperam. Sou como a morte e a sorte grande. 

(continua...)

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