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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel — Não queres mudar o vestido?... Teu quarto está pronto! (Vai saindo, entra Henrique da rua)

Clarinha — Vamos. (A Miranda) Vossa Excelência permite. (Chegando-se a meia voz) Não me queira mal. Sei que os homens nunca devem ceder; mas, não posso vê-lo agastado com Bela! E por quê? Por alguma zanguinha! Alguma teima que nada vale...

Miranda — Justamente!... Ela teima em não dar uma ordem, com receio de contrariar-me; e o que me contraria é que esperem por mim. Tudo quanto ela mandar acho bem feito!

Clarinha — Delicadeza da parte de Bela... Não repare nisso... Ela lhe quer muito bem!

Miranda — Muito! Eu tenho provas!

Isabel (na porta) — Não vens, Clarinha?

Clarinha — Aqui me tens! (A Henrique) Oh! depressa voltou!

CENA XII

Miranda e Henrique (abraçam-se)

Miranda — Com estás?

Henrique — De saúde, bem.

Miranda — E do resto?

Henrique — Vive-se.

Miranda — Falas de um modo! Acaso não és feliz?

Henrique — Feliz?... Não sei.

Miranda — Não o és decerto. A felicidade sente-se, e com tal exuberância, que derrama-se em torno por quanto nos cerca.

Henrique — Segue-se que ainda não me chegou; mas também asseguro-lhe, meu tio, que não tenho o mau gosto de considerar-me desgraçado.

Miranda — Na tua idade, casado com uma bonita moça, tão prendada pela natureza, como pela fina educação que recebeu; possuidor de uma abastança que te poupa a humilhação do serviço mercenário; sem entorpecer os nobres estímulos do trabalho; amado pelos teus, estimado por todos, que te falta para ser feliz, Henrique?

Henrique (a rir) — Nada, meu tio! Eu sou, e o confesso para minha confusão, o filho pródigo da fortuna. Essa deidade caprichosa, guiada pela mão do melhor dos homens, de um pai extremoso (aperta a mão de Miranda) encheu-me de benefícios; e o ingrato, apesar de todos os carinhos da sorte, ainda deseja.

Miranda — Mas em suma, que desejo é esse? Não poderemos satisfazê-lo?

Henrique — É o meu sonho. No meio dessa ventura, que lhe devo, meu tio, sinto às vezes um grande vácuo dentro d'alma: e esse vácuo vem enchê-lo o tédio e o desânimo... Lembro-me que sou um ente inútil, que as horas e os dias monótonos gastos em consumir a existência, podia eu dar-lhes um emprego útil, na ciência, nas letras, em qualquer outra ocupação. Minha distração é a caça; não podia ser a política?

Miranda (a rir) — Que é ainda uma espécie de caça, a de alteneria. (Sério) Meu querido Henrique, caíste na mesma ilusão que infelizmente nos arrasta a todos nós, os filhos pródigos da fortuna, como disseste há pouco.

Henrique — Qual?

Miranda — Na mocidade, a vida abre-se diante de nós como um jardim; entramos por essa mansão risonha com a alma cheia de desejos e esperanças. Uns, famintos de riqueza, divisam o pomo de ouro, e arrojam-se por entre abrolhos e fraguedos para alcançá-lo. Outros, sedentos de glória, deslumbram-se com os esplendores dessa rosa mágica riçada de espinhos, que desabrocha nos cimos inacessíveis dos rochedos, à borda dos abismos.

Henrique — Meu tio é um desses!

Miranda (com expressão) — Fui!... Outros finalmente caminham dia e noite, extenuados de fadiga, rompendo a espessura, para descobrirem o fruto da ciência. Entretanto, lá está logo à entrada do jardim, rasteira e oculta, a flor modesta, a violeta celeste que Deus plantou na terra para derramar sobre a alma o bálsamo divino. Alguns a olham de longe, desdenhosamente; muitos aproximam-se um instante atraídos pelo suave perfume; mas todos passam além; nenhum põe aí o termo dessa jornada que se chama a vida; nenhum faz dessa flor agreste o seu primeiro cuidado e o seu melhor tesouro.

Henrique — Quanto a mim, não tem razão, meu tio!

Miranda — Ouve! Quando chega o inverno, que os expulsa do jardim encantado, lá voltam os viajantes alquebrados, com a alma seca e árida como um deserto; um mordeu o pomo de ouro, e viu que estava cheio de cinza; outro quando pensava colher a rosa, ela transformou-se em chama que o abrasou e desfez-se em fumo; o terceiro, mal tocava no fruto da ciência, este se desfazia em pó. Todos ao passarem pela moita rasteira, buscam com os olhos a florzinha; e já não a acham; murchou.

Henrique — Não há de murchar para mim, como não murchou para o Senhor.

Miranda — Oh! para mim, não, decerto! Essa flor, já compreendeste, Henrique, é a felicidade conjugal; que embalsama com sua divina fragrância o seio da família, que adorna de festões e grinaldas o lar doméstico, e cobre de uma eterna primavera a nossa existência. Hás de ter visto, em tuas excursões pelas matas de Petrópolis, esses troncos decepados e carcomidos, verdadeiros anciãos da floresta; rebentamlhe os renovos pelas raízes, e a folhagem brilhante do jovem arvoredo os veste de galas. É assim o velho que sonha cultivar a felicidade conjugal; os filhos e as famílias que lhe crescem em torno o cobrem de sorrisos e carinhos.

Henrique — E cuida meu tio que eu não tenho as mesmas idéias?

(continua...)

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