Por José de Alencar (1857)
O mocinho negociante, tendo chegado à Praça do Comércio, tomou o braço da pessoa que o esperava, dizendo-lhe:
— Está tudo arranjado.
— Seriamente? exclamou o outro moço, cujos olhos brilharam de alegria.
— Pois duvidas!
— Então, amanhã...
— Ao meio-dia.
— Obrigado! disse o moço, apertando a mão de seu companheiro com efusão.
— Obrigado, por quê? O que fiz vale a pena de agradecer? Ora, adeus! Vem jantar comigo.
— Não, acompanho-te até lá; mas preciso estar às quatro horas em minha casa.
Os dois moços de braço dado dobraram o canto da rua Direita.
CAPÍTULO XI
Seguram pela rua do Ouvidor.
— Não sei que interesse, dizia o nosso negociante, continuando a conversa; não sei que interesse tens tu, Carlos, em resgatares aquela letra!
— É uma especulação que algum dia te explicarei, Henrique, e na qual espero ganhar.
— É possível, respondeu o outro, mas permitirás que duvide.
— Por quê?
— Ora, é boa! uma letra de um homem já falecido, de uma firma falida!
Aposto que não sabias disto?!
— Não; não sabia! disse Carlos, sorrindo amargamente.
— Pois então deixa contar-te a história.
— Em outra ocasião.
— Por que não agora? Reduzo-te isto a duas palavras, visto que não estás disposto a escutar-me.
— Mas...
— Trata-se de um negociante rico, que faleceu, deixando ao filho coisa de 300 contos de réis e algumas dívidas, na importância de um terço dessa quantia. O filho gastou o dinheiro e deixou que protestassem as letras aceitas pelo pai, o qual, apesar de morto, foi declarado falido.
Enquanto seu companheiro falava, Carlos se tinha tornado lívido; conhecia-se que uma emoção poderosa o dominava, apesar do esforço de vontade com que procurava reprimi-la.
— E esse filho... o que fez? perguntou com voz trêmula,
— O sujeito, depois de ter-se divertido à larga, quando se viu pobre e desonrado, enfastiou-se da vida e fez viagem para o outro mundo.
— Suicidou-se?
— É verdade; mas o interessante foi que na véspera de sua morte se tinha casado com uma menina lindíssima.
— Conheces?
— Ora! quem não conhece a Viuvinha no Rio de Janeiro?
É a moça mais linda, a mais espirituosa e a mais coquette dos nossos salões.
A conversa foi interrompida, os dois amigos caminharam por algum tempo sem trocarem palavra.
Carlos ficara triste e pensativo; o seu rosto tinha neste momento uma expressão de dor e resignação que revelava um sofrimento profundo, mas habitual.
Quanto ao seu companheiro, fumava o seu charuto, olhando para todas as vidraças de lojas por onde passava e apreciando essa exposição constante de objetos de gosto, que já naquele tempo tornava a rua do Ouvidor o passeio habitual dos curiosos.
De repente soltou uma exclamação e apertou com força o braço de seu amigo.
— O que é? perguntou este.
— Nada mais a propósito! Ainda há pouco falamos dela, e ei-la!
— Onde? exclamou Carlos, estremecendo.
— Não a viste entrar na loja do Wallerstein?
— Não; não vi ninguém.
— Pois verás.
Com efeito, uma moça vestida de preto, acompanhada por uma senhora já idosa, havia entrado na loja do Wallerstein.
A velha nada tinha de notável e que a distinguisse de uma outra qualquer velha; era uma boa senhora que fora jovem e bonita e que não sabia o que fazer do tempo que outrora levava a enfeitar-se.
A moça, porém, era um tipo de beleza e de elegância. As linhas do seu rosto tinham uma pureza admirável.
Nos seus olhos negros e brilhantes radiava o espírito da mulher cheio de vivacidade e de malícia. Nos seus lábios mimosos brincava um sorriso divino e fascinador.
Os cabelos castanhos, de reflexos dourados, coroavam sua fronte como um diadema, do qual se escapavam dois anéis, que deslizavam pelo seu colo soberbo.
Trajava um vestido de cetim preto, simples e elegante; não tinha um ornato, nem uma flor, nem outro enfeite, que não fosse dessa cor triste, que ela parecia amar.
Essa extrema simplicidade era o maior realce da sua beleza deslumbrante. Uma jóia, uma flor, um laço de fita, em vez de enfeitá-la, ocultariam uma das mil graças e mil perfeições que a natureza se esmerara em criar nela.
Os dois moços pararam à porta do Wallerstein; enquanto seu amigo olhava a moça com o desplante dos homens do tom, Carlos, através da vidraça, contemplava com um sentimento inexprimível aquela graciosa aparição.
Os caixeiros do Wallerstein desdobraram sobre o balcão todas as suas mais ricas e mais delicadas novidades, todas as invenções do luxo parisiense, verdadeiro demônio tentador das mulheres.
A cada um desses objetos de gosto, a cada uma das mimosas fantasias da moda, ela sorria com desdém e nem sequer as tocava com a sua alva mãozinha, delicada como a de uma menina.
As fascinações do luxo, as bonitas palavras dos caixeiros e as instâncias de sua mãe, tudo foi baldado. Ela recusou tudo e contentou-se com um simples vestido preto e algumas rendas da mesma cor, como se estivesse de luto, ou se preparasse para as festas da Semana Santa.
— Assim, depois de cinco anos, disse-lhe sua mãe em voz baixa, persistes em conservar este luto constante.
A Viuvinha sorriu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.