Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO – Foi má idéia trazê-la hoje ao teatro... sua mulher estava sofrendo.
ADRIANO – Ela o quis... exigiu... pela primeira vez resistiu aos meus conselhos... eu não queria...
HELENA – Oh! sem a menor dúvida....... ele não queria que eu viesse hoje ao teatro... não queria... (Rir nervoso.) ele não queria!...
CLARIMUNDO – Helena! (A Adriano.) E prudente levá-la para casa.
ADRIANO – Por certo... (A Helena.) Helena... vamos?... convém que nos retiremos... precisas descansar...
HELENA – Pensas?
CLARIMUNDO – Oh, senhor! mande chegar o carro... (Em tom um pouco severo.) Helena!...
HELENA – Vamos... manda chegar o carro... (Adriano dirige-se para o lado do camarote de Bráulio.) Oh! não! (Em pé.) estou boa... quero ficar...
ADRIANO – É impossível...eu vejo que me escondes talvez padecimento sério...
procuras poupar-me... e atormentas-me... sr. Clarimundo, Helena está mais doente do que diz...
CLARIMUNDO – Também o creio; mas é preciso acabar com esta cena que seria ridícula, se não fosse dolorosa... esta sala é de todos... muitos estão passando por aquele corredor... alguns podem entrar aqui, e... seria triste que suspeitassem de uma disputa entre marido e mulher.
ADRIANO – Não há porém disputa...
HELENA – Nem pode haver... nunca... nunca... disputa não... (A Clarimundo com intenção.) disputa... Não! (A Adriano.) Adriano, estou muito melhor, eu te peço; consente que eu me demore... é tão bonita a ópera... Orphée aux enfers... consente...
ADRIANO (A Clarimundo.) – Que hei de fazer?...
CLARIMUNDO – Ficar. Helena se apraz de demorar-se nos infernos... faça-lhe o gosto: ela quer ver, contemplar, admirar, e neliar o diabo... pois bem, é capricho de mulher... dá-lhe o gozo envenenado do diabo, e peça a Deus que também o livre da tentação...
ADRIANO – Chegam dª. Úrsula e Fábio...
CLARIMUNDO – Quando eu falava no diabo!... pois não me lembrava estes.
CENA VII
CLARIMUNDO, HELENA, ADRIANO, ÚRSULA e FÁBIO
ÚRSULA – Dª. Helena! oh! Sr. Clarimundo! que surpresa feliz!
FÁBIO – Sr. Clarimundo! que fortuna!
CLARIMUNDO – Minha senhora, um velho pajem que volta ao serviço de v.
ex.! Sr. Fábio... (Aceitando-lhe a mão.)
ÚRSULA – Abençôo pois duas vezes a minha vinda ao teatro esta noite. (Dá a mão a Clarimundo, que a beija curvando-se.) ADRIANO (A Helena.) – Como estás, Helena?...
HELENA (A Adriano.) – Boa... perfeitamente boa.
CLARIMUNDO – Além da imensa graça de beijar-lhe segunda vez a mão, terei a honra de ir em breve pedir a v. ex. um favor especial.
ÚRSULA – Um favor? se quiser, eu tomarei o anúncio prévio do pedido por dívida sagrada contraída por mim.
CLARIMUNDO – É o segredo precioso para se ter sempre vinte anos de idade.
ÚRSULA (A Helena.) – Já viu que lisonjeiro?...
CLARIMUNDO – É vaidade de velho que conserva a vista perfeita.
ÚRSULA – Não zombe: ao menos ainda não me envelheceu o coração; pergunte à dª. Helena como a amo.
HELENA – Já lho disse, e também...
CLARIMUNDO – Que V. Ex. tem a memória igualmente jovem... lembra-se muito do passado!... nem se esqueceu de mim...
HELENA – E talvez que isso contribuísse não pouco para a amizade que devo a dª. Úrsula...
CLARIMUNDO – Talvez... sim... (Olhando para Úrsula.)
ÚRSULA – Ah, não! Dª. Helena merece tudo por si... o passado e o senhor...
nada tem com a amizade que lhe voto...
ADRIANO – Creio que subiu o pano: vamos?...
FÁBIO (Voltando do fundo.) – Não: o pano já tinha subido e acaba de descer:
parece que houve novidade... penso que algumas famílias já se estão retirando. (Movimento.)
CENA VIII
CLARIMUNDO, HELENA, ADRIANO, ÚRSULA, FÁBIO, CINCINATO; algumas famílias passam, retirando-se pelo corredor, outras entram no salão; senhoras tomam seus mantos, etc.
CINCINATO – Era o caso de se chamar o médico do inferno...
ADRIANO – Que houve?
CINCINATO – Um ataque de cabeça em Orfeu por ciúme de Júpiter...
faniquitos de Eurídice em conseqüência... e suspensão do espetáculo até outra noite infernal... mas onde está o médico do inferno? é indispensável recorrer a Plutão e Proserpina que o devem conhecer... Plutão e Proserpina... oh! parece que chegam.
CENA IX
CLARIMUNDO, HELENA, ADRIANO, ÚRSULA, FÁBIO, CINCINATO,
BRÁULIO e DIONÍSIA; movimento de famílias que se retiram e que entram no salão.
BRÁULIO – Que contratempo!... que infelicidade!...
DIONÍSIA – Titio, Eurídice está em perigo de vida?...
CINCINATO – Não se assuste, minha senhora, as Eurídices são imorríveis.
(Helena avança um passo e chega-se a Úrsula.)
ADRIANO (A Helena.) – Vamos... vamos... (Helena tem os olhos em Dionísia.) vamos, Helena... (Dionísia olha para Helena.)
HELENA (Trêmula.) – Vamos... (Imóvel e apertando a mão de Úrsula) Dª.
Úrsula... vamos... (Imóvel)
CLARIMUNDO (A Helena) – O meu braço, minha filha... (Clarimundo toma o braço de Helena, e leva-a; saem logo Adriano, Úrsula e Fábio.)
DIONÍSIA – Que olhar me deitou aquela moça! (Movimento de repulsão das famílias que se afastam.)
FIM DO SEGUNDO ATO
ATO III
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.