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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Oh! sim, foi, e caro tive eu de pagá-la. Eu tinha feito, sem o pensar, o sacrifício de minha vida; não me era porém então doloroso, porque meu coração estava livre... eu não amava. Mas parece que Deus quis castigar-me de pronto; porque Deus, Celina, não abençoa a união daqueles que se não amam. Logo na noite de nossas núpcias, meu marido me apresentou um mancebo de nome Henrique, e me convidou a abraçar nele o seu primeiro amigo; e nessa mesma noite, portanto, vi um homem que preferi a meu marido. E daí por diante todos os dias sempre esse mancebo belo, nobre, ardente, de olhos tão lindos, e um sorrir tão meigo, se apresentava diante de mim, ao pé de meu marido pálido, abatido, com os cabelos começando a embranquecer, sem espírito para compreender a mulher que desposara, e sem poder ser amado por ela!

– Oh! devia ser horrível!... murmurou a “Bela Órfã”.

– Como chorei então a minha vida de solteira!... Sim, eu estava passando novos tormentos, tormentos dobradamente dolorosos. Dantes era a minha vaidade que me perseguia, mas que eu poderia vencer, e rir-me dela se tivesse sido menos louca; então era um poder mais forte, era o meu coração que se tornara meu inimigo, que me pedia o que eu não podia dar-lhe, e que, a pesar meu, a despeito de meus esforços para subjugá-lo, mesmo junto de meu marido e principalmente a seu lado, ele me bradava – amo Henrique!...

– E esse segredo terrível... ia perguntando Celina.

– Este amor funesto e invencível, continuou Mariana sem atendê-la, eu o sentia ir crescendo mais e mais todos os dias; para cúmulo de minha desdita, para tornar-se mais iminente o perigo em que eu me achava, Henrique amou-me perdidamente. Oh! e nos momentos em que eu contemplava esse nobre mancebo a hesitar quando me falava; a lançar-me a furto olhares ardentes, a tremer quando me dava o braço, a suspirar involuntariamente se a meu lado se sentava, e tão forte e tão grande, e tão fiel a seu amigo, que nunca achava uma frase terna para me dizer, e que sempre tantos elogios tinha para fazer a meu marido; eu amaldiçoava os laços que me prendiam, concebia outra vez desejos de matar-me, e outra vez escondida no meu quarto, chorava como chora uma criança em desespero!...

– Oh! devia ser horrível! repetiu Celina.

– Uma vida como essa não podia ser por muito tempo carregada. Eu via Henrique ir definhando pouco a pouco, como um arbusto que vai morrendo com suas folhas já murchas, e suas flores caindo. Tive mil vezes vontade de lançar-me a seus pés, e lhe pedir que vivesse; veio-me mil vezes aos lábios a confissão do amor que lhe votava; mas, bendito seja o amor do homem virtuoso! aquele nobre silêncio do mancebo, aquele santo respeito com que ele me tratava, aquela fidelidade que ele tinha a meu marido, me sustiveram na posição de esposa honesta. Enfim, Henrique teve também medo de si, e fugiu-nos...

– Fugiu?...

– Sim, há três anos; seis meses antes da morte de meu marido, Henrique partiu para França. O que se passou no dia em que ele nos deixou, não posso bem descrever; sei que eu estava só quando Henrique veio despedir-se; sei que nenhum de nós pronunciou uma única palavra que não pudesse ser proferida em alta voz e diante de todos; mas sei também que apesar disso, ele levou a certeza de meu amor, deixou-me a certeza do seu; e lembro-me enfim, que nesse mesmo dia meu pai me pediu de joelhos, de joelhos, Celina, que eu tivesse piedade de meu marido, de seus cansados anos!...

– E agora?...

– Agora, Celina, tu mo perguntas?... exclamou Mariana com novo arrebatamento de prazer. Agora eu o amo como dantes, ou mais ainda; eu quero ser dele; eu o amo, ouviste, eu o amo!

– Compreendo; mas...

– Mas o quê?...

– É que o teu prazer, Mariana, se mostra hoje tão grande como a distância que te separa de Henrique.

– Oh! não! graças a Deus, Celina, ele chegou... desembarcou ontem, e hoje escreveu a meu pai, pedindo licença para visitar-nos. Vê... lê comigo a sua carta.

Mariana tirou do seio um bilhete todo perfumado, e três vezes o leu a Celina.

– Portanto, hoje mesmo devo torná-lo a ver! Ah! Celina, se eu pudesse fazer-

me mil vezes mais bela!... porque eu amo... muito... muito... tanto, que seria capaz de dar a vida por ele, e capaz de matar a mulher que se atrevesse a amá-lo!

A “Bela Órfã”, ingênua, inocente, sem ter jamais experimentado esses sentimentos desabridos e perigosos, que fazem falar com a veemência com que falava Mariana, olhava para esta, atônita e sem se atrever a pronunciar uma só palavra.

E também a viúva aprazia-se daquele silêncio. Quem ama e fala do seu amor, estima não ser interrompido, gosta de discorrer horas inteiras repetindo mesmo o que já disse mil vezes, e começando de novo a história que exatamente acaba de contar.

Finalmente Mariana sentiu que já tinha .o coração mais leve, ergueu-se, e abraçando ainda Celina exclamava:

– Eu sou feliz! imensamente feliz!...

(continua...)

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