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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

Porem de quanta imundícia e variedade de animais por ela espalhou a natureza, não havia lá nenhuns domésticos, quando começaram os Portugueses de a povoar. Mas depois que a terra foi deles conhecida, e vieram a entender o proveito da criação que nesta parte podiam alcançar, começaram-lhe a levar da ilha do Cabo Verde cavalos e éguas, de que agora ha já grande criação em todas as Capitanias desta Província. E assim ha tão bem grande copia de gado que da mesma ilha foi levado a estas partes, principalmente do vacum ha muita abundância, o qual pelos pastos serem muitos, vai sempre em grande crescimento. Os outros animais que na terra se acharão todos são bravos de natureza, e alguns estranhos nunca vistos em outras partes: dos quais darei aqui logo noticia começando primeiramente por aqueles que na terra se comem, de cuja carne os moradores são mui abastados em todas as Capitanias.

Ha muitos veados e muita soma de porcos de diversas castas, convém a saber, ha monteses como os desta terra: e outros mais pequenos que tem o umbigo nas costas de que se mata na terra grande quantidade; e outros que comem e criam em terra, e andam debaixo d’água o tempo que querem: aos quais, como corram pouco por causa de terem os pés compridos e as mãos curtas, proveio a natureza de maneira que podessem conservar a vida debaixo da mesma água, aonde logo se lançam de mergulho, tanto que vem gente, ou qualquer outra cousa de que se temam, e assim a carne destes como a dos outros é muito saborosa e tão sadia que se manda dar aos enfermos, porque para qualquer doença é proveitosa e não faz mal a nenhuma pessoa.

Tão bem ha uns animais na terra a que chamam Antas, que são de feição de mulas, mas não tão grandes, e tem o focinho mais delgado, e um beiço comprido á maneira de tromba. As orelhas são redondas e o rabo não muito comprido: e são cinzentas pelo corpo, e brancas pela barriga. Estas Antas não saem a pacer se não de noite, e tanto que amanhece metem-se em alguns brejos, ou na parte mais secreta que acham e ali estão o dia todo escondidas como aves noturnas a que a luz do dia é odiosa, até que anoitecendo, tornam outra vez a sair e a pacer por onde querem como é seu costume. A carne destes animais tem o sabor como da vaca, da qual parece que se não diferença cousa alguma.

Outros animais ha a que chamam Cotias, que são do tamanho de lebres; e quase tem a mesma semelhança, e sabor. Estas cotias são ruivas, e tem as orelhas pequenas, e o rabo tão curto que quais se não enxerga. Ha tão bem outros maiores a que chamam Pacas, que tem o focinho redondo, e quase da feição do gato, e o rabo como o da Cotia. São pardas, e malhadas de pintas brancas por todo o corpo. Quando querem guisai-las para comer, pelam-nas como leitão, e não nas esfolam, porque tem um couro mui tenro e saboroso, e a carne tão bem é muito gostosa e das melhores que ha na terra.

Outros ha tão bem nestas partes muito para notar, e mais fora da comum semelhança dos outros animais, (a meu juízo) que quantos até agora se tem visto. Chamam-lhe Tatus, e são quase tamanhos como Leitões: tem um casco como de Cágado, o qual é repartido em muitas juntas como laminas, e proporcionados de maneira, que parece totalmente um cavalo armado. Tem um rabo comprido todo coberto do mesmo casco: o focinho é como de leitão, ainda que mais delgado algum tanto, e não bota mais fora do casco que a cabeça. Tem as pernas baixas, e criamse em covas como coelhos. A carne destes animais é a melhor, e a mais estimada que ha nesta terra, e tem o sabor quase como de galinha.

Há tão bem coelhos como os de cá da nossa Pátria de cujo parecer não diferem cousa alguma.

Finalmente que desta e de toda a mais caça de que acima tratei participam (como digo) todos os moradores, e mata-se muita dela á custa de pouco trabalho em toda parte querem: porque não ha lá impedimento de coutadas, como nestes Reinos, e um só Índio basta, se é bom caçador, a sustentar uma casa de carne no mato, ao qual não escapa um dia por outro que não mate porco ou veado, ou qualquer outro animal destes de que fiz menção.

(continua...)

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