Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
As fêmeas prezam-se muito de seus cabelos e trazem-nos muito compridos e penteados e as mais delas enastrados.Os machos costumam trazer o beiço furado e uma pedra no buraco metida por galantaria, outros há que trazem o rosto todo cheio de buracos e assim parecem mui feios e disformes: isto lhes fazem quando são meninos. Também alguns indios andam pintados por todo o corpo, pelo qual fazem uns riscos escritos na carne: isto não traz se não quem tem feito alguma valentia. E assim também machos como fêmeas costumam tingir-se com sumo duma fruta que se chama jenipapo, que e verde quando se pizza e depois que põe no corpo e se enxuga fica mui negro e por muito que se lave não se tira se não aos nove dias: isto tudo fazem por galantaria.Estas índias guardam castidade a seus maridos e são muito suas amigas, porque também eles sofrem mal adultérios; casam os mais deles com suas sobrinhas, filhas de seus irmãos ou irmãs, estas são suas mulheres verdadeiras, e não lhes podem negar seus pais.Algumas índias se acham nestas partes que juram e prometem castidade, e assim não casam nem conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem no consentiram ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios como se não fossem mulheres, e cortam seus cabelos da mesma maneira que os machos trazem, e vão à guerra com seu arco e flechas e a caça: enfim que andam sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve e que lhe faz de comer como se fossem casados.Estes indios vivem mui descansados, não têm cuidado de cousa alguma se não de comer e beber e matar gente; e por isso são mui gordos em extremo; e assim também com qualquer desgosto emagrecem muito; e como se agastam de qualquer cousa comem terra e desta maneira morrem muitos deles bestialmente.Todos seguem muito o conselho das velhas, tudo o que elas lhes dizem fazem e têm-no por muito certo: daqui vem a muitos moradores não comprarem nenhumas por lhes não fazerem fugir seus escravos.Quando estas índias parem a primeira cousa que fazem depois do parto lavam-se todas num ribeiro e ficam tão bem dispostas como se não pariram; em lugar delas se deitam seus maridos nas redes, e assim os visitam e curam como se eles fossem os paridos.Quando algum destes indios morre costumam enterrá-lo numa cova assentado sobre os pés, com sua rede as costas em que ele dormia, e logo pelos primeiros dias põem-lhe de comer em cima da cova. Outras muitas bestialidades usam estes indios que aqui não escrevo, porque minha intenção foi não ser comprido, e passar por tudo isto com brevidade.
DOS RESGATES
Estes indios não possuem nenhuma fazenda, nem procuram adquiri-la como os outros homens, somente cubicam muito algumas cousas que são deste Reino — scilicet, camisas, pelotes, ferramentas e outras cousas que eles têm em muita estima e desejam muito alcançar dos portugueses. A troco disto se vendiam uns aos outros, e os portugueses resgatavam muitos deles e salteavam quantos queriam sem ninguém lhes ir a mão, mas já agora não há isto na terra nem resgates como soía, porque depois que os padres da Companhia vieram a estas partes proveram neste negócio e vedaram muitos saltos que faziam os portugueses por esta Costa, os quase encarregavam muito suas consciências com cativarem muitos indios contra direito e moverem-lhes guerras injustas. E por isso ordenaram os padres e fizeram com os Capitães da terra que não houvesse mais resgates nem consentissem que fosse nenhum português a suas aldeias sem licença do mesmo Capitão. E quantos escravos agora vêm novamente do Sertão ou das outras Capitanias todos levam primeiro à Alfândega e alli os examinam e lhes fazem perguntas quem os vendeu, ou como forram resgatados, porque ninguém os pode vender se não seus pais ou aqueles que em justa guerra os cativam, e os que acham mal adquiridos põem-nos em sua liberdade, e desta maneira quantos indios se compram são bem resgatados, e os moradores da terra não deixam por isso de ir muito avante com suas fazendas.
CAPÍTULO VIII
DOS BICHOS DA TERRA
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil.