Por Euclides da Cunha (1909)
Assim, considerando o primeiro trecho, aquela declividade de 1,60m por quilômetro, tão diversa da que se lhe sucede, de 0,22m, diz-nos para logo, dispensando o exame local, que o verdadeiro Alto-Purus — demarcado oficialmente a partir da boca do Acre, e estendido por alguns geógrafos ainda mais para jusante principia de fato muito além, a 3079 quilômetros da foz, na confluência do Cujar e do Curiuja, os dois tributários em que ele se reparte numa dicotomia perfeita, perdendo o nome e esgalhando-se largamente fracionado pelos mais remotos pontos da sua vasta bacia de captação.
Por outro lado, o declive real de mal se aproxima da conhecida relação firmada como o limite mínimo das vertentes torrenciais.
Conclui-se, então, de pronto, que o rio, até no seu último segmento, onde é sempre mais difícil e remorada a regularização dos leitos, está numa fase avançadíssima de desenvolvimento. É o caso excepcional de uma grande artéria, entre as maiores existentes, capaz de ser navegada nas mais extremas nascentes, durante as cheias que lhe encubram os numerosos degraus das corredeiras — porque em tal quadra, admitindo que as águas subam de três metros numa calha de dez, com aquele declive, que corresponde a 0,0015m por metro, o simples emprego da fórmula de D’Aubuisson, nos diz que as correntes derivarão com a velocidade máxima de apenas 2,20m, facilmente balanceada por uma lancha veloz.
Ora, estas deduções resultantes de breve contemplação de um quadro tão expressivo que dispensa o diagrama correspondente, ressaltam, vivamente, às mais incuriosas vistas de observador escoteiro, que ali passe depois de varar a planura amazônica num itinerário de quinhentas léguas.
De fato, o que sobremaneira o impressiona é o espetáculo da terra profundamente trabalhada pelo indefinido e incomensurável esforço dos formadores do rio. Chega, depois de trilhar o canyon coleante do Pucani, ao sopé das últimas vertentes; defronta a clivosa escarpa de uma corda insignificante de cerros deprimidos; vinga-lhe em três minutos a altura relativa de sessenta metros escassos — e não acredita que esteja na fronteira hidrográfica mais extraordinária do globo, podendo ir de uma passada única do Vale do Amazonas ao Vale do Ucaiáli...
A altura em que se vê não lhe basta a desapertar os horizontes, ou a atalaiar as distâncias. É inapreciável. Não há abrangê-la com a escala mais favorável dos mapas. E sem dúvida jamais compreenderia tão indeciso divortium aquarum a tão opulentas artérias, se ao buscar aqueles rincões, varando, ao arrepio das itaipavas, por dentro das calhas reprofundadas do Cujar, do Cavaljane e do Pucani, o observador se não habituasse a contemplar, longos dias, os mais enérgicos efeitos da dinâmica poderosa das águas que transmudaram a paragem outrora mais em relevo e dominante. Não lhe importa a inópia de conhecimentos paleontológicos ou a carência de fósseis norteadores. Está, evidentemente, sobre a ruinaria de uma sublevação quase extinta, cujo sinclinal ele pôde reconstruir, prolongando as linhas dos estratos que afloram nos sulcos onde se encaixam aqueles últimos tributários, denunciando todos na tranqüilidade relativa, quase remansados nos intervalos de suas corredeiras (restos de velhíssimas catadupas destruídas), a derradeira fase de uma luta em que o Purus, para alongar a sua seção de estabilidade, teve que derruir montanhas. Pelo menos a atividade erosiva e o volume de materiais arrebatados de todos aqueles pendores, foram incalculáveis, para que as linhas de drenagem se abatessem até aos substrato rochoso e declinasse, como vimos, aos graus apropriados aos cursos navegáveis.
Apesar disto, a transição para o trecho seguinte ainda é repentina. Passa-se da declividade quilométrica de 4,60m, para a de 0,22m.
Mas é o único salto. Daí por diante, como o revela o quadro anterior, até ao último segmento extremado pela foz, onde para descer-se um metro se tem de caminhar 66,700, a atenuação dos declives prossegue com uma regularidade perfeita, incluindo o Purus entre as caudais de todo regularizadas, cujo "ciclo vital" progressivo vai cerrando-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.