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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Em casa de Luís Furtado, naqueles dias mais próximos à festa, era este o assunto obrigado de todas as conversas. D. Branca, principalmente, cuja loquacidade contrastava com a moderação dos inquilinos do segundo andar — não fazia outra coisa senão remexer nas gavetas, polir os móveis, expor os cristais, num açodamento, numa impaciência que lhe dava ares de inseto doido. Queria tudo nos seus lugares, para quando chegasse o domingo. Mandou afinar o piano, lavar a casa de um extremo ao outro, inclusive o quarto dos hóspedes e o escritório de Furtado, no rés-do-chão, substituir as cortinas da sala de visitas; enfim, toda a casa ficou pronta com quatro dias de antecedência para receber o desembargador Lousada e alguns convidados "sem cerimônia". Era pouca gente: o visconde de

Santa Quitéria, o Dr. Condicional, dois amigos quase íntimos do secretário, o Loiola, tesoureiro do Banco, a viúva Tourinho, muito boa senhora, também rica e prendada, o Xavier, do Jornal de Notícias e um ou outro rapaz, de intimidade. Evaristo caiu das nuvens.

— Minha mulher — disse ele à esposa — temos grosso forrobodól Esta gente chama festa sem cerimônia a uma reunião de altos personagens que se divertem aristocraticamente. Com que vestido te vás apresentar?

— Eu?... O melhorzinho é o de casimira cinzenta, não falando no de gorgorão...

— De casimira?.

Evaristo levou a mão ao queixo e fitou os olhos na mulher em atitude contemplativa.

— Que dizes?

— Não sei... — respondeu Adelaide com indiferença.

O bacharel agarrou-se aos bigodes, repuxando-os com a língua, mordendoos, como se empacasse na resolução dalgum problema de direito.

— Aonde nos vimos meter! — dizia, passeando no quarto. — Aonde nos vimos meter!

— É o teu grandioso e espetaculoso Rio de Janeiro!

Evaristo sorriu da ironia, e continuando a passear:

— Há um remédio...

— Qual?

— Fazer um negócio com o Banco...

— Negócio?

— Sim, levantar um pequeno empréstimo.

Noutras quaisquer circunstâncias, Adelaide o aconselharia que não, como já o fizera uma vez na província; mas D. Branca acenava-lhe de longe, no seu espírito, "que não desse uma nota, que não fosse tola."

— Que dizes? — repetiu o bacharel.

— Não sei...

— Pois eu sei: vou falar ao Furtado. Achei a incógnita da equação. Isto de dever, todos devem mais ou menos; a questão é pagar.

Com duzentos mil-réis, sim, com duzentos mil-réis, arranjava-se tudo: uma toilette para Adelaide, uma calça de casimira, e... e charutos.... O vestido, compravase feito, numa modista.

Entraram em acordo, ele e a mulher, sobre as despesas, fizeram cálculos à ponta de lápis, rabiscaram papel até quase meia-noite. Adelaide já agora também pedia a Deus que não chovesse. Era uma ótima ocasião para se apresentar às amigas de D. Branca, ficar conhecendo a viúva Tourinho, a esposa do desembargador e outras senhoras do grand monde fluminense.

Evaristo falou, com efeito, ao secretário, no próprio Banco, acerca do empréstimo, alegando razões de ordem doméstica. — Era mais um grande favor ao "amigo Furtado...

— Queres um conselho de amigo? pergunta Luís.

— Não contraias empréstimo ao Banco. O Banco foi criado para altas transações financeiras, e... e o diretor é um homem... um homem...

— ... um homem de têmpera antiga, velho e rabugento. Espera aí um bocado...

O secretário levantou-se, abriu um cofre de ferro, que estava no gabinete de trabalho, e contou duzentos mil-réis.

— Toma lá, sou eu quem tos empresta sem juros e sem prazo. Restituirás no fim do mês... daqui a um ano, daqui a um século...

— Isso não! interrompeu o marido de Adelaide. - Vim pedir ao Banco e não quero que te sacrifiques por minha causa. Isso não!

— Toma lá, homem, não sejas menino. Eu que tos empresto, é que tenho absoluta confiança em ti - que diabo!

— Qual confiança! Isso já não é ser amigo, é ser pai! — Pois quero ser teu pai - dá-me essa honra.

Riram e o bacharel guardou as notas na algibeira da calça, com um movimento discreto e reconhecido. - Ora, muito obrigado, Sr. Luís, muito obrigado!

— Cavalheiros somos, na carreira andamos... - disse enfaticamente, com um sorriso, o fidalgo de Botafogo.

Às quatro horas iam os dois no mesmo bonde a caminho de casa.

O bacharel entrou radiante, com um estranho fulgor na pupila. Adelaide acompanhou-o ao quarto.

— Sabes o que é isto? — foi dizendo com a mão espalmada no bolso.

E, antes que Adelaide respondesse, tirou o dinheiro, erguendo a mão em triunfo.

—Quanto? — perguntou a rapariga com aquele risinho ingênuo que lhe era muito natural.

— Vinte!

— Vinte? apenas vinte?

— ... notas de dez! — Ah!...

Evaristo, então, narrou, palavra por palavra, o diálogo entre ele e Furtado, no Banco, e não ocultou o seu entusiasmo pela "generosidade" do amigo, que ainda uma vez se revelara "digno e correto!"

— Belo homem, o Luís!

Eu também acho... — murmurou Adelaide.

— Olhe que me colocou, deu-me hospedagem, trata-nos à vela de libra, e agora... duzentos mil-réis, para pagar amanhã, no fim do ano, daqui a um século!

Adelaide aprovou com a cabeça o entusiasmo do marido.

(continua...)

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