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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Parece-me que só neste país ainda não se observa nem se permite esse costume tão natural, tão próprio, tão eficaz mesmo, das senhoras pobres empregarem-se no comércio a retalho. Na Inglaterra, em França, na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos é hábito velho, ao que me consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus deveres com assombrosa perícia. Às nove horas da manhã, que digo eu! às seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lá no inverno, a bolsa de um lado, sem sequer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escritório, sem que ninguém lhes dirija uma pilhéria, sem que ninguém as desrespeite, e, à noite, recolhem-se da mesma forma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra.

Muitas vezes saem das lojas, mudam a toilette, fazem seu penteado, perfeitamente dispostas, e dai a pouco estão nos bailes, nos concertos, nos teatros.

Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma senhora exercendo as funções de simples caixeira, ou como guarda-livros, silenciosa na sua carteira, escriturando cuidadosamente o Caixa.

Em alguns estabelecimentos públicos, no Correio, por exemplo, grande parte do serviço é feito por senhoras. Esse edifício, digamo-lo de passagem, na Rua Canal, é de aparência extraordinariamente simples e desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana, é correto e sem demora.

Indivíduos de muitas nacionalidades acotovelam-se na grande rua.

Em Nova Orleans, como em quase toda a Luisiana, fala-se mais o francês que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarquia falar, embora mediocremente, o espanhol.

Havia chegado o momento fatal, inevitável, de nos exibirmos também em língua alheia.

Pouco a pouco, nos íamos familiarizando com a população e com o idioma desse adorável canto da terra que o Mississipi banha.

O dia seguinte ao de nossa chegada à Nova Orleans (31 de março) estava designado para o encerramento da Exposição das Três Américas. Avisados desta solenidade, devíamos comparecer a ela em grande uniforme, incorporados.

Foi um dia essencialmente brasileiro esse. Nos convites para a festividade lia-se esta impagável gentileza: Brazilian day.

Todas as atenções convergiam para o Almirante Barroso (brazilian man-ofwar).

O palácio da Exposição estava situado a alguns quilômetros fora da cidade, num de seus pontos mais pitorescos, o Upper City Park, à margem do Mississipi — largo edifício vistosamente adornado e do alto do qual se avistava toda a cidade e imediações.

Na manhã desse dia, por sinal chuvoso e coberto de nevoeiro, embarcamos em trem especial, que nos fora destinado pelo presidente da Exposição, Mr. Ed. Richardson, um ianque muito amável, todo cortesia, sempre com um belo e espontâneo sorriso a cativar a gente, correto sempre, irrepreensivelmente correto.

Embarcamos na Canal Street, defronte do Pickwick Club, em companhia de muitos oficiais da Guarda Nacional, de Mr. Richard-son e de oficiais da corveta francesa l'Étoile, que se achava no porto de Nova Orleans, dos cônsules e outras sumidades do país.

O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, brasileiras e d’outras nações, ao som de músicas e aclamações delirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que caía sem cessar penetrando os vagões escancarados ao ar frio da manhã, soltando guinchos medonhos...

Durante o trajeto não me cansei de observar os sítios que o trem atravessava.

De um lado e d'outro da linha estendiam-se vastas plantações de algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, imóveis, fantasmas brancos no silêncio infinito dos descampados; casas de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas à neve, muito brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e desapareciam rapidamente no horizonte esfumado.

É de ver a simplicidade reunida à graça que apresentam essas habitações:

ver uma é ver cem, tal a uniformidade de sua arquitetura. Em geral são de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as cálidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admirável cuidado e bom gosto.

Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar atenção ao círculo ruidoso dos colegas, eu (lembro-me bem) formava planos de vida sossegada, n'algum eremitério entre a eterna frescura das plantas e o amor eterno duma criatura querida.

Invejava os simples, os sertanejos, os homens do campo — esses para quem a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau dizia: Heureux est le mortel qul du mond ignoré Vit content de soi même en un coin retiré...

E eu me transportava outra vez ao Brasil, outra vez eu tinha a nostalgia da pátria, a saudade vaga e inexplicável de minha terra natal.

(continua...)

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