Por Adolfo Caminha (1895)
Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco, segundo a tabela, o grumete foi o último a subir para a mostra. Vinha irrepreensível na sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, calças boca-de-sino, boné de um lado, coturnos lustrosos.
Bom-Crioulo, que já estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo. — Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Esta mesmo apto! Então o espelhinho sempre servira, hein?
E com um gesto rápido, nervoso, disfarçando a concupiscência:
— Bonitinho!
O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d’alto a baixo, risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra.
Depois de terminada a leitura do regulamento, feita a revista, Bom-Crioulo chamou-o à proa, e entraram numa longa palestra, deliciosa para o negro a julgar pela expressão cada vez mais fulgurante de sua fisionomia.
O mar estava relativamente calmo, apenas eriçado por uma viração branda que ameigava o mormaço. Nuvens aglomeravam-se para o sul, crescendo em bulcões pardacentos, como impelidas pela mesma força, longe ainda, rente com o horizonte. Em cima, no alto do grande hemisfério que a luz do meio dia incendiava, o azul sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso... Parecia que se estava muito perto de terra, porque no mesmo horizonte da corveta ia passando uma velinha triangular de jangada, microscópica e fugitiva. Pela alheta de boreste vinha-se chegando também o vulto sombrio de um grande vapor de dois canos.
Bom-Crioulo e Aleixo conversavam à sombra da bujarrona, lado a lado, indiferentes à alegria dos outros marinheiros, cuja atenção volvia-se agora para o transatlântico. Todos, menos os dois, queriam saber de que nacionalidade era o “bruto”. Uns afirmavam que era inglês, por causa do tamanho; outros viam na cor dupla das chaminés o distintivo das Messageries Maritimes: devia ser o Equateur ou o Gironde — um dos dois. Faziam-se apostas, enquanto o monstro se aproximava silenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pouco...
— Mas, olhe, você não queira negócio com outra pessoa, dizia Bom-Crioulo. O Rio de Janeiro é uma terra dos diabos... Se eu o encontrar com alguém, já sabe...
O rapazinho mordia distraidamente a ponta do lenço de chita azul-escuro com pintinhas brancas, ouvindo as promessas do outro, sonhando uma vida cor-de-rosa lá nesse Rio de Janeiro tão falado, onde havia uma grande montanha chamada Pão d’Açúcar, e onde o imperador tinha o seu palácio, um casarão bonito com paredes de ouro...
Tudo avultava desmesuradamente em sua imaginação de marinheiro de primeira viagem. Bom-Crioulo tinha prometido levá-lo aos teatros, ao Corcovado (outra montanha donde se avistava a cidade inteira e o mar...), à Tijuca, ao Passeio Público, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da rua da Misericórdia, num comodozinho de quinze mil-réis onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo uma só, larga, espaçosa... Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seu soldo. Podia-se viver uma vida tranqüila. Se continuassem no mesmo navio, não haveria cousa melhor; se, porém, a sorte os separasse dava-se jeito. Nada é impossível debaixo do céu.
— E não tem que dizer isto a ninguém, concluiu o negro. Caladinho: deixe estar que eu toco os paus...
Nesse momento o transatlântico defrontava com a corveta, içando a ré a bandeira inglesa, uma grande lenço de tabaco, encarnado, e saudando com três guinchos medonhos o navio de guerra, cuja bandeira também flutuava na popa, verde e ouro.
Um mundo de gente movia-se na proa do inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.
A montanha de nuvens que há pouco erguia-se fantasticamente lá longe, ao sul, alastrava o céu, aproximando-se cada vez mais, cor de chumbo, tempestuosa, desdobrando-se em contornos de feições bizarras, como uma barreira enorme que de repente se levantasse entre a corveta e o horizonte. Meio encoberto já, o sol coava sua luz triste através das nuvens, irisando-as de uma faixa multicor e brilhante, espécie de auréola, que descia para o mar. O aguaceiro estava iminente.
— Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial de quarto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.