Por Inglês de Sousa (1891)
Não saía nunca. O Felipe do Ver-o-peso, seu correspondente, ou fosse recomendação do padrinho, ou esquecimento, jamais fora buscar um domingo à tarde para passear, para respirar um pouco de ar livre. Da cidade nada sabia, conservara a impressão que dela recebera na tarde da chegada. O pai e o padrinho algumas vezes escreviam, o padrinho para perguntar pelos progressos e o exortar a obedecer em tudo aos mestres, que bem sabiam o que era conveniente; o pai para dar-lhe minuciosas notícias da fazenda, a morte do mouro, o bom sucesso da malhada, a cobertura da Diana, o roubo da Estrelinha, o combate dos garrotes com a onça, e outros pormenores da vida rural que lhes causavam nostalgia intensa, afundando-o numa melancolia negra. Mas as cartas eram raras, e na falta de comunicação com a mãe e o mundo exterior, Antônio sentia o isolamento da vida pesar-lhe sobre o coração e fechá-lo a todas as expansões. Ficara assim, suspeitoso e arredio no trato dos colegas. Mal visto deles, por força da sua superioridade incontestável, passava horas de folga a enterrar-se nos velhos livros teológicos ou de história eclesiástica, saturando-se das doutrinas absorventes que os condiscípulos encaravam como boas tão-somente para ilustrar o espírito.
A concentração em que vivia por força das circunstâncias, entregara-o avidamente ao estudo dos tempos heróicos do cristianismo exaltando-lhe a imaginação com os exemplos de abnegação e de sacrifício dos mártires da Igreja. E ao passo que os colegas decoravam tudo aquilo, para a utilidade prática dos sermões, Antônio de Morais criava para si um mundo à parte, e ardia em desejos de reproduzir neste século as lendas que enchiam aqueles livros santos...
Quando se fora adiantando nos estudos e entrara a decifrar a filosofia de Santo Tomás e do Genuense com auxílio de padre Azevedo, quando cursara a teologia moral e dogmática, o seu espírito se perdera, num dédalo de idéias antagônicas e contraditórias. A dúvida, essa filha de Satanás, pairara sobre a sua alma de ignorante, como um gavião prestes a devorá-la. O seu grosseiro materialismo nativo abriu luta com as sutilezas da doutrina. O senso inculto do campônio declarou guerra aos mistérios incompreensíveis e sublimes que os padres lhe ensinavam da cadeira da verdade, muito senhores de si, entre uma pitada de Paulo-Cordeiro e um bocejo sonolento.
Debalde espevitara o juízo, na ânsia de assegurar-se da verdade, de agarrála fisicamente como a um bezerro rebelde. A sua mente era como uma areia seca, em que o vento apaga os desenhos que o vento mesmo traçara. Mal lhe parecia estar senhor duma idéia, já começava a encará-la como duvidosa, e logo tão absurda que só um asno maior da marca a poderia conceber. E se a inteligência algumas vezes passivamente recebia a proposição do mestre e a gravava como verdade incontestável, em outras ocasiões punha-se em atitude belicosa, de lança em riste contra a doutrina da cadeira, que mal se enunciava, logo lhe despertava no cérebro indisciplinado a idéia exatamente contrária.
Fora assim que bastara a padre Azevedo pregar-lhe a doutrina ortodoxa de que o papa é superior ao concílio, ainda geral e ecumênico, para que a opinião galicana em contrário, fortalecida pelo sofístico argumento de Gerson, de Noel Alexandre e de todos os bispos franceses, se arraigasse no seu espírito propenso à rebeldia. E quando mais entusiasmo gritava o professor na sua voz de falsete, enrouquecida pelo abuso do rapé:
— Prima sedes a nemine judicatur!
Antônio mastigava baixinho a quarta proposição do Concílio provincial de 1682, sintetizadora das liberdades da Igreja de França.
Sobre a questão de fazerem os pecadores parte da Igreja, ou deverem dela ser excluídos, debalde sustentara o mestre a doutrina de Santo Agostinho, em contestação à dos donatistas. Não lograra convencer o discípulo, por mais que amontoasse textos das Sagradas Escrituras, e declarasse que a opinião dos donatistas fora adotada por Huss e por Lutero, quanto bastava para inficionar de heresia. A rebeldia nativa do discípulo opunha-lhe à autoridade o concurso dos 296 bispos, combatidos pelo filho de Mônica na conferência de Cartago.
Padre Azevedo, esfregando nervosamente as ventas no lenço de Alcobaça, respondia que na opinião de juiz competente, do papa Murtinho V, tanto valia Agostinho como todos os mais doutores.
—Tantu unus quanti omnes! berrava vitoriosamente o mestre, relanceando os vesgos olhos por sobre a classe convencida cujo silêncio aprovador esmagava o contradicente, que, por fim, entrando na razão, sujeitava-se ao parecer da cadeira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.