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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Atirou-se então a especular no comércio, mas o seu temperamento não lhe permitia demorar-se por muito tempo no mesmo objeto e, achando-se viúvo pouco depois de casado, lançou as vistas para Diamantina, que nessa ocasião atraía os ambiciosos, e lá se foi ele,. sempre acompanhado pelo Caetano, explorar o diamante.

Tão depressa o viram em 1835 na Diamantina como em 1842 em Santa Luzia na revolução ao dos liberais mineiros, lutando contra a célebre reação conservadora manifestada pela lei de 3 de Dezembro.

A galhardia e valor com que se houve nessas conjunturas valeu-lhe a estima de Teófilo Otoni e outros importantes chefes do seu partido. Dessa estima e mais dos bens particulares que então gastou na política foi que se originou o título, com que mais tarde o agraciaram.

A sua atitude política, a sua riqueza e os seus dotes naturais haviam-lhe já conquistado na corte as melhores relações deste tempo.

Uma vez, por ocasião de trazer para aí uma excelente partida de diamantes, travou conhecimento com um importante fazendeiro de café, em cuja fazenda se hospedou por acaso.

Esse homem, mineiro da gema, era no lugar a principal influência do partido conservador e, sem dúvida, um dos que primeiro explorou a famosa Mata do Rio, que então começava a cobrir-se de novas plantações.

O fazendeiro tinha uma filha e Emílio cobiçou-a para casar. Mas o encascado político, descendente talvez dos antigos emboabas que avassalaram o centro de Minas, não cedeu ao primeiro ataque, e Emílio teve de lançar mão de todos os recursos insinuativos da sua raça para conseguir captar a confiança do pai e o coração da filha. Quando lá tornou segunda vez, deixou o casamento ajustado. Então foi ainda a Diamantina liquidar os seus negócios e, voltando à Mata, recebeu por esposa a mulher que, mal sabia ele, estava destinada a ser a mais suave consolação e o melhor apoio do resto de sua vida.

Foi desse enlace que nasceu Teobaldo, logo um ano depois do casamento.

Emílio só reapareceu na corte em 1847, onde os seus correligionários, então no poder, o agraciaram com o titulo de Barão do Palmar; mas voltou logo para Minas e tratou de estabelecer com os seus capitais uma fazenda na vizinhança da do sogro, que acabava de falecer.

Foi esse o melhor tempo de sua vida, o mais tranqüilo e o mais feliz. Só depois de casado, Emílio pode avaliar e compreender deveras a mulher com quem se unira; só depois de casado descobriu os tesouros de virtude que ela lhe trouxe pura casa, escondidos no coração.

Laura, assim se chamava a boa esposa, era um destes anjos, criados para a boa segurança do lar doméstico; uma dessas criaturas que nascem para fazer a felicidade dos que a cercam.

Em casa, senhores chamavam-lhe "Santa". E este doce tratamento conduzia com os seus atos e com a sua figura.

- Esta, sim! exclamava o Caetano, entusiasmado Esta, sim, é uma esposa de conta, peso e medida!

Pouco a pouco, Emílio fui amando a mulher, ao ponto de chegar a estremecê-la, o que até aí lhe parecia impossível.

No meio de toda essa felicidade, Teobaldo deu o. seus primeiros passos pela mão do pai, da Santa e do fiel Caetano, que já o adorava tanto como os outros.

O pequeno era o mimo do casa; era o cuidado, o enlevo, a preocupação de quantos o viam crescer.

Com que sacrifício não consentiu, pois, o Barão do Palmar que o filho, daí a seis anos, seguisse sozinho para um colégio de Londres, donde havia de passar a Coimbra.

Mas assim era necessário, porque Emílio, então comprometido no tráfico dos negros africanos, viu-se atrozmente perseguido por Euzébio de Queiroz, terror dos negreiros e seu inimigo político.

Eis aí quem era e donde vinha o pai de Teobaldo.

E agora, visto aos cinqüenta e tantos anos, aquele tipo correto na forma e um pouco desabrido nas maneiras, estava ainda a dizer a sua procedência mestiça. Por mais despejado que fosse todavia, cativava sempre com muita graça e muita insinuação. Ar gentil e franco, gestos largos, coração tão aberto a tudo e a todos, que até ao mal franquearia a entrada, desde que houvesse lá por dentro uma idéia de vingança.

Possuía ele um destes temperamentos desensofridos e ao mesmo tempo saturados de bom humor; tão prontos a zombar dos grandes perigos, como a inflamar-se à menor palavra que de longe lhe tocasse em pontos de honra. Temperamentos que não conhecem meio termo e que vão da pilhéria à bofetada com a rapidez de um salto.

Amava loucamente a mulher e adorava o filho. Todas as suas paixões de outrora, todos os seus gostos e hábitos sacrificados ao atual meio em que ele vivia, como que se transformaram em um sentimento único, em um amor de quinta-essência, em uma dedicação sem limites por Teobaldo. Mas não sabia educa-lo e por cegueira da afeição permitia-lhe todos os caprichos. A mais extravagante fantasia do menino era uma lei em casa do Sr. Barão.

(continua...)

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