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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Nos braços dela uma gentil criança

Dorme placidamente. Então sorrindo,

Ao ver o belo infante, e o brando sono

Que essa alma em flor, não machucada ainda

De ásperas mãos humanas, sobre as asas

À doce região dos anjos leva,

Pára o Cardoso. Brígida chegando

Da mão lhe trava, os olhos ergue a medo,

E estas palavras trêmula suspira:

“Revendo senhor, coragem tanta,

Cega destimidez, prendas tão raras

(Perdoai da caseira o atrevimento)

Fatais vos hão de ser. De boca em boca,

Corre que ides citar a toda a pressa

O bárbaro ouvidor. Ai, mais que nunca

A idéia de perder-vos me acobarda.

Que será desta mísera criança,

Se o padrinho lhe falta,18 e sem conforto,

Nem amparo, nem mão experiente

Houver de caminhar do berço à campa?

Convosco irão, senhor, os dias dela,

E os meus dias também, tão bafejados

Daquelas auras que a fortuna sopra

Por que seja maior nossa desdita.

Quem mais irei servir? Que mesa estranha

Me verá preparar toalha e copos,

Se esse monstro infernal, que a liberdade

E a vida guarda em suas mãos de ferro,

Ousar tirar-vos ambas? Não me resta

Pai nem mãe; tive irmãos; soldados foram,

Morreram todos na holandesa guerra.

Todos acho eu em vós; vós, meu amparo

Té hoje heis sido. Oh! por quem sois, vos peço,

Não me deixeis, senhor, sozinha e triste

Semear de amargas lágrimas a terra,

A dura terra em que poisar meu corpo,

Deslembrada, talvez escarnecida.

É tempo ainda; arremessai ao longe

O mandado fatal; à casa vinde,

Escondei-vos dos olhos do prelado,

Que em paz ficando vos comete o risco,

E duas vidas salvareis de um lance”.

XI

“Ó Brígida (o Cardoso lhe responde)

Justos receios são do teu afeto.

Mas se eu agora depusesse as armas,

Que seria da honra desta igreja?

Onde iria parar o nosso Almada?

Eu conheço o rancor do feroz Mustre,

Eu sei que o braço da justiça pode

Mil afrontas fazer aos nossos cargos,

E a cada passo encher-nos de vergonha.

Mas quão pior seria a raiva sua

Se levasse a melhor neste conflito,

Se castigando esta mortal injúria,

Não lográssemos nós ao mesmo tempo

Aterrá-lo, humilhá-lo, escangalhá-lo.

Vê que terríveis males, que desastres

Sobre nós cairão, se inda a vitória

Couber ao ímpio. O temerário braço

Quem poderá deter-lho? Quem, se

Um dia ousar da minha casa arrebatar-te,

O golpe desviará do seu capricho?

Servira irás então, mísera escrava!

Ao sol ardente cavarás a terra,

Sem gozar um minuto de descanso;

E se acaso na estrada, junto à cerca,

Um clérigo passar dos que me mordem,

Ao ver-te exclamará: “Lá serve ao

Mustre A famosa caseira do Cardoso!”

Triste suspiro de saudade e pena

Me mandarás em vão... Oh! antes, antes

(Se tal desgraça me prepara a sorte)

Num cárcere fechado a luz do dia

Viver perpetuamente, condenado

A perpétuo jejum de pão e água!”

XII

Disse, e do tenro infante os lindos braços

Docemente puxou. Logo desperta

Do sono a criancinha, os olhos volve

Ao heróico escrivão; porém, ao ver-lhe

O gigante chapéu de três pancadas,

Grita, recua e no roliço colo

Da mãe esconde o apavorado rosto.

Leve sorriso então assoma aos lábios

Da tenra mãe, do intrépido padrinho.

Descobre-se o Cardoso, e pondo em terra

O tremendo chapéu, toma nos braços

A criancinha, um ósculo lhe imprime,

E aos céus envia estas ardentes vozes:

“Céus que me ouvis, fazei que ilustre e grande

Este menino seja; igual audácia,

Igual força lhe dai, com que ele assombre

A raça toda de ouvidores novos.

Que diga o mundo ao vê-lo: “Ali renasce

Do valente padrinho o brio e o sangue!

E à doce mãe console esta homenagem”.

XIII

Cala, e nos nédios braços da caseira

A criança depôs; do chão levanta

O chapéu; na cabeça o põe de chofre.

“Vai da casa cuidar (lhe diz), eu parto;

Corro a citar o bárbaro inimigo.

Vencê-lo cumpre ou perecer com honra”.

Brígida comovida se despede

Do impávido Cardoso, e lentamente

Para casa dirige os passos trêmulos,

Não sem voltar de quando em quando o rosto,

Que o medo enfia e que umedecem lágrimas.

CANTO VI

I

Naquele tempo, a mão da arte engenhosa

Os elegantes bairros não abrira,

Refúgio da abastança deste século,

E passeio obrigado dos peraltas.

Por essas praias ermas e saudosas

Inda guardava o eco o som terrível

Do falcão, do arcabuz que a vez primeira

Despertou Guanabara, e o silvo agudo

Da frecha do Tamoio. Ainda o eco

As rudes cantilenas repetia

Do trovador selvagem de outro tempo,

Que viu perdida a pátria, e viu com ela

Perdida a longa história de seus feitos

E os ritos de Tupã, perdida a raça

Que as férteis margens ... Musa, onde me levas?

Filosofias vãs, quimeras, sonhos,

Flores, - apenas flores, - que não valem

Tantos gozos reais dos nossos dias,

Em paz os deixa, e do ouvidor famoso

À rústica morada me encaminha.

II

Não longe do tumulto da cidade,

Entre a verdura de copado bosque, Tinha o

Mustre, uma casa de recreio.

Ali nos dias da estação calmosa,

Depois que à porta sacudia o tédio,

Tranqüilo descansava algumas horas

Da inércia do regaço. Ali gozando

Por olhos, boca, ouvidos e narizes,

Da fértil natureza os dons mais belos,

Correr deixava o mundo, sem que a fronte

O mínimo receio lha ensombrasse.

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III

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(continua...)

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