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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

“ - E que espera você da vida?

“ - Nada, não sei.

“ - Quer vir comigo. para minha casa?

“ - Vou, se me deixar levar Bebé.

“ - Pois então acompanhe-me com ela.

“ Desde esse dia principiei a ter de novo uma cama, um talher certo à mesa do filósofo e roupa lavada e engomada.

“ - Você quer ser uma besta ou um homem instruído? — perguntou-me o Melindroso, meses depois de me haver tomado à sua conta. - Mas, desde já o previno de uma cousa - acrescentou ele. - Eu não admito meio-termo em questões de ilustração. Você no caso que não queira ser uma besta, há de ser um sábio. Escolha.

“ - Quero ser um sábio.

“ - Mas, veja bem, rapaz. Para ser um sábio é necessário que você tenha talento, paciência e coragem. Consulte o seu espírito e veja se pode contar com essas três qualidades.

“ - Posso, sim senhor.

“ - Tu tens talento? - volveu o filósofo, passando a tratar- me por tu, o que nele significava bom humor.

“ - Tenho.

“ - Pois então responde ao que te vou perguntar.

“ - Pronto.

“ - Que farias tu a um cão que te mordesse?

“ - Dava-lhe com uma pedra.

“ - E a um que te lambesse os pés?

“ - Nada.

“ - Bem. Vejamos agora se tens coragem. Dá-me um soco.

“ Eu não esperei segunda ordem e ferrei-lhe um murro na barriga.

“ - Bom — disse o filósofo. — Estou satisfeito e, quanto às provas de paciência reservo-as para mais tarde. Amanhã principiarás a estudar comigo. E daqui a alguns anos saberás tudo que é dado alcançar ao* conhecimento humano.

* No original, o.

“ No dia seguinte o meu protetor começou a ensinar- me simultaneamente as seguintes matérias. Gramática Portuguesa, Francesa, Latina e Grega; Aritmética, Geografia, Física e Astronômica, Música, Desenho e Ginástica.

“ É inútil dizer que de tudo isso só me ficara na cabeça uma confusão diabólica, o que aliás não desanimara o meu singularíssimo professor, nem o fazia retirar de mim a progressiva confiança que eu lhe inspirava.

“ E todos os dias apresentava-me um novo livro e dizia-me:

“ - Lê isto! É bastante que leias; não procures compreender, procura decorar. A cabeça é como a terra, não tem necessidade de conhecer a semente que recebe no seio; a natureza se encarregará de cumprir com os seus deveres. A tua inteligência é a natureza e os livros que te dou são a semente. Decora-os e mais tarde a planta brotará, sem que tu próprio descubras a razão por quê.

“ Eu obedecia. Dos meus seis anos até aos vinte e um, li nada menos do que dez mil volumes de diversos assuntos.

“ Meu professor nada me ensinava a fundo, nem consentia que eu me inclinasse para nenhuma especialidade.

“ - Não - dizia-me ele —, um verdadeiro sábio não deve ter especialidade. Tu deves saber um pouco de tudo e quase nada de todas as cousas. É preciso que entendas tanto de Teologia como de Botânica, como de Arquitetura, como da Arte Culinária, como de Economia Política, como de Literatura e do resto. Quero que a tua inteligência se derrame em torno de ti, pelo universo e não que ela se encanalize pelo tubo de uma especialidade.

“ Prefiro a extensão à profundeza; prefiro o estudo da humanidade ao estudo do homem; prefiro o estudo do homem ao estudo de um órgão ou de um osso; prefiro o estudo de um osso ao estudo particular de uma molécula, e prefiro o estudo de uma molécula ao de um átomo ou à especialidade de não estudar cousa nenhuma.

“ - Vês? — prosseguiu ele — é a isto que nos conduz a especialidade — a zero. A especialidade é o meio de ir apertando as cousas até reduzi-las a nada. Ser especialista e não ser cousa alguma vem a dar na mesma, porque nada adianta conhecer um elo de uma cadeia, quando a gente não conhece a cadeia inteira. Nada adianta conhecer a folha de uma árvore, quando não se conhece a árvore. Depois que saibas tudo sinteticamente, dar-te-ei licença para os teus estudos concretos; antes não, não admito que te demores defronte de nenhuma ciência particular.

“ Este sistema educativo do meu singular protetor, que nesse tempo eu supunha um sábio e que depois verifiquei não passar de um louco, esse sistema fez com que eu aos vinte e dous anos, quando me achei de novo abandonado no mundo, não encontrasse meios de ganhar a vida.

“ Entendia de tudo e nada sabia ao certo. Tentei todas as profissões, experimentei-me em todas as carreiras - nada. Sabia Medicina e não podia curar; sabia Direito não podia advogar; Engenharia e não era engenheiro; Pintura e não era pintor; Arquitetura e não era construtor; enfim entendia de tudo e não era nada.

“ Então fiz-me boêmio e filósofo; principiei a aceitar a vida como esta se apresentasse, sem me preocupar com o dia seguinte.”

- Foi nessas condições - acrescentou ele — que conheci uma velhusca, viúva de um farmacêutico, chamada Leonarda.

- Aquela que estava presa? — perguntei.

- Justamente.

“Minha sogra” — disse eu comigo; e dispus-me a continuar a ouvir o ressuscitado, cujas revelações foram-se-me tornando cada vez mais interessantes, como verá V. Sª. pela outra carta que lhe hei de mandar para a futura Semana.

Sou de V.Sª. Atº. Crº. e ven.or

Novas Revelações

Oitava Carta

Sr. Redator:

(continua...)

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