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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Nem se pode compreender nada disto na sua idade, como também na sua idade ainda não se pode avaliar a força indominável e fatal de um verdadeiro amor! Criança! O amor nos quinze anos é pouco mais que o último folguedo da meninice, atrás dele não existe um passado, existe quando muito uma boneca!

— Senhora!

— Oh! Não vim cá para disputar seu noivo; vim com a intenção de salvá-lo; nada consegui. Paciência! Volto resignada com a vontade de Deus!

Clorinda segurou-a pelo braço.

— Mas, por piedade, explique-me o que há? diga-me o que foi feito de Gregório!

— E acusado de roubo e assassinato! declarou a viúva, finalmente.

— Ah! gritou a outra, como se só esperasse por aquela frase para ter a confirmação de uma terrível suspeita.

E caiu de costas.

O quarto encheu-se logo. Todos queriam saber o que havia. D. Januária correu a apoderar-se da filha, e os mais: principiaram a cruzar entre si olhares interrogativos e desconfiados.

Júlia, sem dar mostras do que se passava em torno de si, afastou-se distraidamente e saiu a dizer entre dentes:

— Preso e acusado! Preso talvez para sempre!

E ao entrar no carro que a esperava na porta, abriu a soluçar com desespero.

Recolheu-se a casa, mas não pôde sossegar. A dúvida sobre o destino de Gregório trazia-lhe o espírito em doido sobressalto. Era urgente obter notícias dele naquela mesma noite, fosse de quem fosse, custasse o que custasse, contanto que Júlia soubesse o que era feito do seu Gregório!

E nesta impaciência percorria toda casa; ora ia à janela, ora de um quarto para outro. Chamou duas vezes a criada para mandar à polícia, mas, receando complicar ainda mais a situação, resolveu nada fazer. Afinal pediu a capa e o chapéu, e deliberou sair. Eram já oito horas da noite.

— Lá embaixo talvez conseguisse saber alguma coisa a respeito de Gregório... calculava a viúva, descendo comovida a escadinha do chalé. Mas ao chegar ao jardim, soltou um grito: pareceu-lhe haver distinguido, encostado ao muro e meio escondido na sombra, o vulto de um homem que a observava atentamente. — Ângela! bradou ela para dentro da casa. Ângela! traze luz!

E não pôde acrescentar mais nada, porque as pernas lhe tremiam já e a voz se lhe embaraçava na garganta.

A criada, também, já possuída de susto, apareceu com uma lanterna.

Júlia não se havia enganado. Escondido nas moitas do jardim, estava um homem, que logo se dirigiu humildemente para ela, com o chapéu na mão.

— Ah! Interjeicionou a viúva, recuando aterrada.

— Não se assuste, minha senhora, disse o desconhecido, com muita brandura. Eu não faço mal a ninguém... Sou um pobre velho inofensivo...

E Júlia, ainda não de todo acalmada, viu-lhe com efeito as longas barbas e os cabelos brancos.

— Mas o que fazia você aí? perguntou ela com dificuldade. Fiquei sobressaltada deste modo!...

— Perdoe, minha senhora, foi sem sequer.... respondeu o velho.

— Mas, enfim, que deseja?

— Eu vinha dar um recado de certo moço que foi preso agora à noite...

— Gregório?! exclamou a viúva, perturbando-se toda. Oh! fale! fale! Diga o que é!

— Mas ele me recomendou que só desse o recado a certa moça, com quem tem relações há coisa de dois anos...

— Sou eu mesma! Fale!

— A senhora então é a viúva Júlia Guterres, a mesma que esteve na secretaria de polícia hoje à tarde?...

— Sou. Pode dar o seu recado!

Mas o velho, em vez de obedecer, endireitou o corpo, avançou dois passos, e soprou em um apito que trazia consigo.

— Que é isto?! perguntou Júlia, de novo aflita.

— A senhora está citada para depor hoje mesmo na polícia o que sabe a respeito de certa pessoa!

E o falso velho dirigiu-se a um soldado, de quatro que acudiram ao seu apito, e ordenou-lhe que acompanhasse aquela senhora à presença do chefe na secretaria de polícia.

— Sim, Sr. delegado! respondeu a praça.

— Bom! agora vamos nós à casa da noiva! acrescentou o disfarçado às praças que restavam, tirando as barbas e a cabeleira.

E seguiram para a casa de Clorinda.

Júlia entretanto, caminhava resiguadamente para a polícia. Não proferiu durante o caminho uma única palavra. Aquela situação, se por um lado a constrangia, por outro lhe alegrava o espírito, prometendo pôr a limpo tudo o que havia a respeito de Gregório.

O chefe recebeu-a em um gabinete onde já esperava por ela; fê-la assentarse, disse-lhe que podia descansar, e, depois de chamar o escrivão e ordenar que se preparasse, principiou o seguinte interrogatório:

CAPÍTULO V

DEPOIMENTOS

— Seu nome, minha senhora? perguntou o chefe de polícia à viúva.

— Júlia Guterres, respondeu esta, sem titubear.

— Seu estado?

— Viúva.

— Profissão?

— Vivo dos meus rendimentos.

— Quais são eles?

— Tenho ações, prédios e escravos.

— Conhece Gregório de Souto Maior?

— Muito.

— Desde quando?

— Há dois anos.

— E essa pessoa em que lhe diz respeito?

— Em tudo.

— Como assim? Tenha a bondade de explicar-se.

— Eu o amo!

— Perdão, observou o Dr. Ludgero, limpando no lenço as lunetas, que acabava de desarmar do nariz; pergunto se essa pessoa se acha porventura implicada de qualquer forma em seus interesses...

(continua...)

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