Por Aluísio Azevedo (1884)
A coisa durou dias. Filomena vacilava na escolha — queria gente especial, fora do comum e pronta a cumprir estritamente os seus caprichos, sem tugir nem mugir; ainda que com isso custasse muito mais caro.
Para a cozinha preferia um chim; para o serviço da copa um inglês, um groom legitimo, e para sua criada grave alguma coisa de francesa ou russa ou espanhola, uma criada, enfim, que não fosse de cor, nem tivesse a menor sombra de portuguesa.
— Oh! os portugueses eram incompatíveis com a sua fantasia!
Mas não encontrou gente nessas condições, e, enquanto esperava por ela, resignou-se a tomar para seu serviço uma Cecília, tão brasileira como um Roberto, que foi substituir o Manuel e também como o novo jardineiro, e como o novo copeiro, e como o novo cozinheiro. — Uma lástima! — todos brasileiros!
— Está agora mais satisfeitinha com seu marido?!... perguntou-lhe o Borges meigamente.
— Sim, respondeu ela, deixando-o beijar-lhe a mão. Vais muito bem. Continua, continua dessa forma, que um dia, talvez... consigas captar-me a estima.
— Ora!... balbuciou o mestre de obras, já meio desanimado. — É só "continua! continua!" e as coisas é que vão continuando na mesma!...
E o bom homem, no desespero de merecer as graças da esposa, transformava-se pouco a pouco.
O Guterres, indo visitá-lo, três meses depois do casamento, soltou um grito de estupefação e abriu grandes olhos espantados:
— Que! Pois é o João Borges?!... que metamorfose, meu Deus! que mudança!
E contemplando-o de alto a baixo. Sim senhor! sim senhor! — Está moço e bonito! Onde foi você, seu maganão, arranjar esses bigodes tão pretos e tão petulantes?!
— É que aquela barba por debaixo do queixo principiava a incomodar-me... respondeu o marido de Filomena, abaixando os olhos e enrubescendo.
— Mas agora reparo! tornou o outro. — Fraque à inglesa! colarinho da moda! prastron! meias de cor! polainas! sapatos de verniz! flor à gola! — Bravo! seu João! Bravo! Não há como uma mulherzinha bonita para fazer desses milagres!
E vendo o amigo acender um charuto. — Também fuma?!... Ó senhores! estou maravilhado!
— É... gaguejou o janota à força; — o rapé ultimamente, não me fazia bem...
Dou-me muito melhor com o charuto!...
— E digam mal do casamento!... considerou o Guterres. — Queria que se mirassem neste espelho!
E em resposta a um gesto de impaciência do Borges:
— Não, meu amigo, isto tenha paciência! Em três vidas que você vivesse não me pagaria o serviço que lhe prestei, levando-o à casa da defunta D. Clementina!
— Sim, sim... respondeu o outro, cortando a conversa. — Mas que ordena afinal, o meu amigo?
O Guterres, mudando logo de aspecto, disse então o motivo de sua visita; — se o outro lhe pudesse adiantar ainda uns duzentos mil réis, seria um grande favor...
O Borges coçou a cabeça. — Era o diabo!... As coisas não iam lá muito bem... O casamento trouxera despesas consideráveis!... Agora o negócio fiava mais fino; tinha de pensar no futuro!... os filhos não tardariam por aí...
— Bom, senhor! retorquiu o Guterres, transformando-se de novo. — Bom! Eu também não exijo sacrifícios!...
E deixando escapar aos poucos como o vapor comprimido de uma caldeira, a raiva que se lhe desenvolvia por dentro.
— Desculpe! Desculpe! — Pensei que você fosse o mesmo homem!... ou que pelo menos o fosse para mim... a quem... digo-lhe então!... devia trazer nas palminhas, se... se soubesse ser mais reconhecido!
— Ora, vá plantar batatas! exclamou o Borges, contendo a custo o que tinha para dizer a respeito dos tais favores do Guterres. — Não esteja ai a dizer barbaridades!
— Você nega então que só a mim deve estar casado?
— Homem! não me amole, homem de Deus! Se, para — o ver pelas costas, tenho de dar duzentos mil réis — aqui estão! mas, por quem é, deixe-me em paz! — Ingrato!
Aí os tem, leve-os e não se incomode em voltar cá para restitui-los! Vá, vá — com Deus!
— Sim! disse o Guterres com ênfase, tomando o chapéu e a bengala — sim!
levo comigo o vil dinheiro, porque desgraçadamente não tenho outro remédio; mas também sabendo que, de sua parte, é uma covardia aproveitar o aperto em que me acho, para injuriar-me desse modo!
— Fomente-se! respondeu o Borges, dando-lhe as costas.
O outro, desde aí, não o poupou mais. Logo no dia seguinte, em uma roda onde se falava do mestre de obras, teve ocasião de lhe meter as botas. — Além de um grande pedaço d'asno, é um impostor! bradou e]e. Pensa, lá por ter os seus mil réis, que é superior a todo o mundo! Um tolo!
E apontou as toucas do Borges, as transformações que sofrera o basbaque depois do casamento. Mas quase todos lançaram esses comentários à conta da inveja, e o marido da encantadora Filomena ia, cada vez mais, ganhando a reputação de um homem completamente feliz.
Entretanto, as exigências daquela multiplicavam-se, e o Borges continuava a submeter-se, estribado sempre na grata esperança de possuí-la um dia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.