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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Fosse para o inferno com as suas adorações! Diabo da pamonha! “Que o esperava de braços abertos!” Era quanto podia ser! Aquilo até lhe cheirava a debique! Aquilo parecia um insulto à sua desgarra, à sua terrível posição!

E chorava, o infeliz chorava como se quisesse vingar nas lágrimas.

Depois da carta de Hortênsia, a vida se lhe fazia mais escura e mais apertada entre as paredes da sua prisão. Quase que já não podia agüentar a presença do Paiva, do Simões e de alguns outros colegas que lá iam. No meio das sombras, progressivamente acentuadas em torno dele, só a imagem tranqüila e doce de sua mãe permanecia com a mesma consoladora suavidade; sempre aquela mesma carinhosa figura de cabelos brancos. Aquele corpo fraco, vergado e tão mesquinho que parecia pequeno demais para sustentar tamanho amor.

— Minha mãe! Minha santa mãe! Exclamava o preso, quando seu espírito, esfalfado pelas desilusões, precisava remansear ao abrigo morno e quieto de um bom pensamento.

— Minha santa mãe!

CAPÍTULO XXI

Três meses depois, a Escola Politécnica e a Escola de Medicina apresentavam o quente aspecto de uma sedição. — Amâncio fora absolvido.

Os estudantes formigavam assanhados como se acabassem de ganhar uma vitória. O nome do nortista era repetido com transporte; um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo Paiva Rocha e pelo Simões, aguardava o colega à saída do júri, para o conduzir em triunfo ao Hotel Paris, onde havia à sua espera um almoço e a banda de músicos alemães.

Fora muito extenso o último júri, quarenta horas seguidas; a defesa de

Amâncio principiou à meia – noite e acabou às seis da manhã. O advogado, que “estava feliz como nunca”, ainda aproveitou engenhosamente essa circunstância para afestoar o remate de seu pomposo discurso ; ”Não queria que o rei dos astros se envergonhasse com aquele nojento espetáculo de pequenas misérias! Não queria que o sol tivesse de corar defronte de semelhante tolina! Pedia que se varressem de pronto as consciências; que se descarregassem os espíritos, para que limpamente recebessem a esplêndida visita da aurora! — Aí chegava o dia! Aí chegava a luz, enxotando os fantasmas tenebrosos da noite e precipitando-os em debandada pelo espaço!”

“Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece nos vossos espíritos alguma sombra, alguma dúvida, alguma opinião vacilante sobre a inocência daquele pobre mancebo...(e mostrava Amâncio com um gesto supremo) — que essa dúvida se apague! Que essa opinião vacilante se resolva na luz que nos assalta! Que essa última sombra se retire espavorida de envolta com as últimas sombras da noite que foge!”

— Bravo! Bravo! Apoiado! Muito bem!

E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edifício, com a luz vermelha do gás que amortecia, as palavras retumbantes do orador tomavam uma expressão de trágica solenidade. E os rostos lívidos e tresnoitados iam se esbatendo nas sombras da sala, como pálidas manchas brancas que se dissolvem.

Ninguém saíra antes de terminar a defesa; um empenho nervoso os prendia ali; as palavras do advogado eram aplaudidas com febre; — todos queriam a absolvição de Amâncio.

Às nove horas da manhã a cidade parecia ter enlouquecido. Interrompeu-se o trabalho; os empregados públicos demoravam-se na rua; os cafés enchiam-se com a gente que vinhas do júri. À porta das redações dos jornais não se podia passar com o povo que se aglomerava para ler as derradeiras notícias do processo, pregadas na parede à última hora.

Por toda a parte discutia-se a brilhante defesa de Amâncio de Vasconcelos: “Estivera magnífica! — Surpreendente! — Uma verdadeira obra- prima! Uma glória para o advogado Fulano! “Repetiam-se frases inteiras do imenso discurso; faziamse comparações “Maître Lachaud não e sairia melhor!”

A Rua dos Ourives estava quase intransitável com a multidão que se precipitava freneticamente para ver sair o absolvido. Á porta do júri, o tal grupo de estudantes capitaneado pelo Paiva, esperava-0 formando alas ruidosas. Tudo era impaciência e sofreguidão.

Afinal, apareceu o homem. Vinha muito pálido e um pouco mais magro. Ouviu-se então um rugido formidável que se prolongava por toda a rua. Os chapéus agitaram-se no ar.

— Viva Amâncio de Vasconcelos!

— Vivô! repetiram os colegas. — Morram os locandeiros — Morram os piratas!

Amâncio passava de braço a braço, afagado. Beijado, querido, como uma mulher formosa.

Mas o Paiva e Simões apoderaram-se dele, e, seguidos pelo enorme grupo de estudantes, puseram-se a caminho para o hotel, entre as contínuas exclamações de entusiasmo, que rompiam de todos os pontos.

Entraram na Rua do Ouvidor. {Por onde passava o bando alegre dos rapazes, um rumor ardente, ancho de vida, enchia a rua num delírio de vozes confundidas.

(continua...)

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