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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

À hora aprazada lá estava ele de novo no colégio, e bem pode o leitor calcular com que ansiedade não lhe saltaria por dentro o coração, quando lhe anunciaram que a desejada menina ia afinal ser conduzida à sua presença.

Estela apareceu cabisbaixa e silenciosa na sua estamenha azul­ferrete, e com os cabelos escondidos numa desgraciosa coifa de torcal; acompanhava­a de perto a semanária, velha, macilenta, de óculos quase negros, mãos ocultas nas largas mangas do burel, e o rosto resguardado pelas engomadas abas do seu enorme toucado de linho branco. A rapariga parecia tolhida de sobressalto e timidez, mas seus formosos olhos logo se acenderam e animaram ao dar com os de Gustavo, que a contemplavam enamorados; e, com o feminil e agudo instinto, que jamais atraiçoa a mulher defronte do homem que a ama lealmente, toda ela no mesmo instante se encheu de confiança, deixando em sorrisos transbordar do íntimo da alma a consoladora previsão do novo caminho em flor, que naquele supremo momento ia abrir­se para a sua casta e obscura mocidade.

A semanária, sem levantar a cabeça, nem desencovar as mãos, afastou­se discretamente para um canto da sala, entrincheirada nos seus terríveis óculos, cujos vidros redondos e abaulados, lhe davam à fisionomia, assim a certa distância, um perturbador aspecto de ave agoureira.

Gustavo, ao contrário do que sucedia com a moça, e apesar da íntima segurança das suas intenções, achava­se cada vez mais perplexo e embaraçado. Foi com uma voz apenas perceptível que ele lhe falou da necessidade de cuidar seriamente do futuro dela, à vista do precário estado em que se achava Genoveva.

Estela, com o rosto afogado de comoção, ouvia­o sem ânimo de arriscar palavra. E o moço não se fartava de vê­la, achando­a agora sem dúvida menos bonita, porém muito mais fascinadora e amável. Naqueles travessos olhos, que os dele enfeitiçaram desde que se viram pela primeira vez, lágrimas já de mulher haviam deixado tênue sombra dessas ocultas mágoas, donde tira a natureza as melhores notas dos seus hinos de amor.

— A senhora não poderá continuar na falsa posição em que se acha... balbuciou ele. E preciso ocupar na sociedade o lugar que lhe compete...

A semanária tossiu lá do seu canto, e Estela, abaixando as pálpebras, murmurou:

— Será muito difícil... Não passo de uma pobre órfã, quase totalmente desamparada...

— E por que não se casa?... arriscou o rapaz, abaixando ainda mais a voz.

A rapariga estremeceu, sem responder, mas em compensação a tosse da velha aumentou, e o agoureiro espectro começou a aproximar­se dos dois namorados sinistro e lento.

Gustavo acrescentou, chegando a boca ao ouvido da moça:

— E se lhe aparecesse um rapaz, pobre, mas trabalhador e honesto, que a amasse muito... muito...?

Estela sorriu, de olhos baixos, e começou a torcer e destorcer nos dedos o lenço de algodão que tirara da algibeira; ao passo que a lôbrega semanária, num frouxo de tosse recalcitrante, vinha cada vez mais aproximando deles as duas negras vigias dos seus óculos.

— Então... nada me responde?... insistiu Gustavo.

— Não creio... segredou Estela.

— Pois sei eu de um moco nessas condições, cujo maior desejo na vida é obtê­la por esposa...

A tosse da velha tomou proporções intimidadoras, e daí por diante não teve tréguas. Estela torcia e destorcia o lenço com um frenesi mais significativo.

— Vamos... prosseguiu o rapaz, ganhando ânimo e levantando a voz para dominar a tosse da semanária; vamos... diga se posso levar ao desgraçado uma esperança... feliz, ou se tenho de desenganá­lo para sempre... Responda, Estela!...

— Não sei...

— E se uma família de gente virtuosa e meiga a viesse buscar aqui, com o fim de a levar para a companhia dela, não como criada, nem agregada, mas como amiga, que pode quando quiser montar a sua própria casa e constituir honestamente o seu lar... Diga, Estela, a senhora não consentiria em acompanhá­la?...

Ela respondeu que sim com a cabeça, e Gustavo, porque a velha tossia agora desesperadamente, exclamou, soltando verdadeiros berros:

— Então em breve estarei de volta, e comigo virá a mãe dessa família, que se entenderá com a diretora do colégio! Adeus, adeus, minha noiva querida!

Estela, radiante de alegria, estendeu a Gustavo uma das suas mãozinhas, que ele avidamente tomou para levar aos lábios.

A semanária, porém, sem largar de tossir, se havia já metido de permeio entre eles, enquanto por todas as portas do salão surgiram, fariscantes, muitas outras toucas de linho branco, que a tosse da semanária e os gritos do rapaz tinham posto em reboliço.

Gustavo bateu em retirada, mas lá da porta de saída ainda se voltou para a rapariga, a dizer com os olhos e com o estalar dos lábios o que as suas palavras não conseguiram.

E desceu a escada do jardim aos pulos, como se todo corpo lhe acompanhasse os saltos do coração, e lá fora meteu­se de novo no seu tílburi, ardendo por chegar a casa e entender­se com D. Joana sobre o que acabava de combinar com a pupila da lavadeira.

(continua...)

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