Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A sua casa e a sua mesa estavam francas a todos. Não há neste ponto a menor exageração. Tornou-se por vezes curiosa e objeto de gracejo de amigos o fato de chegar-se o vigário Freitas a alguns desses para procurar saber quem eram algumas pessoas que acabavam de jantar à sua mesa, e uma vez, quem era um homem que dormira em sua casa!
Também os habitantes da freguesia de Itaboraí pagavam com o mais decidido amor a dedicação do seu vigário. E quando chegavam as grandes festas do ano, e mesmo durante o correr dos meses, os presentes obsequiosos eram em tão grande número, que ele dizia que já não tinha onde guardá-los; e nos jantares que sempre costumava dar nos dias de festas, o bom vigário exclamava, falando à numerosíssima companhia que cercava a mesa:
– Aqui o convidado sou eu. Porque este lauto banquete foram os senhores que me ofereceram.
Estou narrando fatos de que ainda há testemunhas presenciais que se podem contar por dezenas, e das quais não haverá uma única que não abone a minha verdade.
Em 1842, o cônego Manuel de Freitas Magalhães, instado por alguns comprovincianos, parentes e amigos seus, partiu para sua província natal, e pretendendo a honra de representá-la na assembléia geral, teve de sustentar uma luta porfiada e calorosíssima com o presidente da província, que também se apresentara candidato. A câmara dos deputados anulou essa eleição. O cônego Freitas já se achava no Rio de Janeiro. O presidente da província do Espírito Santo já era também outro, e na nova eleição a que se procedeu, em 1843, o cônego Manuel de Freitas Magalhães obteve todos os votos do eleitorado, à exceção de um só! – eloqüente e brilhante manifestação do voto livre dos seus comprovincianos.
O combate eleitoral de 1842 tinha, no entanto, afetado profundamente o cônego Freitas, que voltou da sua província triste e doente. Os habitantes da freguesia de Itaboraí foram em grande número recebê-lo no porto da Vila Nova de S. José d’El-Rei, e ele, desfazendo-se em lágrimas, atirou-se nos braços destes seus amigos.
Desde esse tempo, começou o cônego Freitas a prever e anunciar a sua morte próxima, e deu-se então um fato que não me animaria a referir, se não pudesse prová-lo com o testemunho de pessoas muito respeitáveis.
Em 1843, pouco antes de partir para a corte, onde devia tomar assento na Câmara dos Deputados, o cônego Freitas acordou uma manhã pensativo e melancólico. Alguns amigos instaram com ele para que dissesse o motivo da sua tristeza e, enfim, o obrigaram a falar.
– Esta noite – disse ele – no meio de um sonho, ouvi perfeita-mente uma voz que me bradou: “O mês de outubro te há de ser fatal.”
Como bem se pode pensar, zombou-se da causa da melancolia do vigário cônego Freitas, e procurou-se por todos os modos distraí-lo. Ele, porem, não se esqueceu mais do sinistro anúncio da voz misteriosa do seu sonho.
Indo para a corte, hospedou-se na casa de seu íntimo amigo o Exmo Sr. Conselheiro Dr. Tomás Gomes dos Santos, a quem por vezes referiu o seu triste sonho.
Chegou, enfim, o mês de outubro, e no dia 15 desse mesmo mês, um ataque repentino pôs termo aos dias do cônego Manuel de Freitas Magalhães, cujas últimas palavras, dirigidas ao seu muito prezado amigo, foram as seguintes:
– Então, Tomás, morro ou não?
E em poucos minutos morreu, com efeito, nos braços do Sr.
Conselheiro Dr. Tomás Gomes dos Santos.
Termina aqui o nosso último passeio à igreja de S. Pedro.
SEGUNDO VOLUME
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O Imperial Colégio de Pedro II
I
AINDA temos conventos e muitas igrejas que visitar. É, porem, indispensável que a variedade dos assuntos venha em meu socorro, para que eu tenha ainda companheiros e não me ache só nos meus passeios.
Levar-vos-ei hoje ao Imperial Colégio de Pedro II. Mas em vez de seguirmos já para a Rua Larga de S. Joaquim, onde existe o externato, ou para o Engenho Velho, onde se acha o internato deste importante estabelecimento, voltaremos ainda à Rua de S. Pedro e pararemos defronte do sobradinho antigo e humilde que é contíguo à igreja de S. Pedro, e dela uma dependência.
Assim como há grandes e caudalosos rios que em sua nascente são apenas tênues arroios, assim também se vêem belas e consideráveis instituições, cujo berço modesto e pobre mal deixara adivinhar o seu futuro brilhantismo.
O Imperial Colégio de Pedro II está neste caso.
Diz-se e pode ler-se, pois está escrito, que este colégio foi fundado no dia 2 de dezembro de 1837. Certo é, porém, que a sua verdadeira origem data de um ano que não me é possível bem determinar e que, no entanto, foi positivamente anterior ao de 1739 e posterior ao de 1733.
E mais ainda, a sua origem primitiva seria tudo quanto quiserem, menos fidalga.
Essa bela instituição, de que hoje tanto nos ufanamos, é filha de humildes pais. Porque há um século e vinte e alguns anos deram-lhe o ser a caridade, que nunca foi altiva, e um simples sacristão-mor, que provavelmente não era de nobre estirpe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.