Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Salustiano soube na manhã desse dia que um documento importante, que o tornava criminoso público, havia caído nas mãos do homem que dois dias antes se declarara seu inimigo.
Concebe-se qual deveria ser o efeito dessa horrível notícia: era um raio que acabava de levantar-se sobre a cabeça do mísero mancebo.
A Providência castiga o crime por todas as maneiras: castiga-o mil vezes por seus descuidos e imprevidências. Aqueles que tinham comprado Jacó, poderiam e deveriam tê-lo visto queimar o processo e a letra falsa. A falta desse cuidado era agora um castigo que vinha sobre o crime que não deveria ficar impune.
Salustiano mandou deitar fora de sua casa o ex-escrivão, que acabava de lhe trazer a fatal nova, e ficou só... perdido em um mar de reflexões torturadoras... aterrado e furioso.
Depois lançou-se sobre sua secretária, e escreveu uma carta com rapidez e desesperação.
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Por sua parte Mariana tinha aparecido naquele dia mais abatida que de ordinário. Um sonho terrível a atormentara toda a noite; acordara três vezes aos gritos de uma criancinha recém-nascida que lhe bradava: – minha mãe!
Depois do almoço retirou-se para o seu quarto, e ficou dolorosamente pensando... no futuro que a esperava.
Era um futuro bem duvidoso!... de um lado estava Celina, que não daria nunca sua mão a Salustiano; do outro lado esse mancebo abominável pronto para falar, e com uma folha de papel na mão. E sua primeira palavra era a desonra e esse papel era o corpo de delito da desgraçada viúva!... e para completar o quadro, via-se no fundo um mísero velho curvado pelos anos e pelos pesares, chorando com os olhos em sua filha, e descendo para dentro de uma cova funda como um abismo!
E depois de tudo isso a imagem de um mancebo pálido e melancólico... a imagem de Henrique tão belo, tão cheio do mais puro amor, tão capaz de fazer a ventura de Mariana!...
Pensava nisso, via tudo isso a infeliz mulher, continuava sempre a pensar e a ver, até que às onze horas da manhã uma escrava entrou em seu quarto e entregoulhe uma carta que acabava de chegar.
Mariana abriu a carta e estremeceu ao ler a assinatura.
Era a carta de Salustiano.
Retirou-se a escrava a um aceno da viúva, que, apenas se achou só, leu a carta:
“Senhora, um acontecimento que pouco lhe importará saber qual seja, porque somente a mim diz respeito, acaba de obrigar-me a modificar minhas disposições. A escritura de meu casamento com a senhora sua sobrinha deverá impreterivelmente ser hoje assinada Às cinco horas da tarde terei o prazer de ir ao “Céu cor-de-rosa”, levando comigo a escritura de que falo, e a carta, que com toda probabilidade espero deixar hoje em suas mãos. Tenho a honra de assinar-me, etc. – Salustiano”.
Mariana ao princípio ficou petrificada, pálida e imóvel como um cadáver; depois com o rosto contraído, os olhos espantados e o corpo convulso, causaria piedade ao coração mais duro.
Era a sentença final que a mísera acabava de ler... O que lhe restava?... O que lhe cumpria fazer?...
Mas passada uma hora, a graciosa cabeça daquela encantadora mulher ergueuse bela e orgulhosa; brilharam seus olhos com ardor imenso, suas faces se animaram com o rubor da vida, e um sorriso que se não podia bem traduzir, que tinha alguma coisa do rir terrível do desespero e do rir sossegado de um mártir cristão, raiou em seus lábios grossos e voluptuosos, deixando alvejar seus lindíssimos dentes.
Animava-a a idéia um novo crime: ela se exaltava com um pensamento sinistro.
– Vencerei... a meu modo!... murmurou ela.
E depois, por entre uma risada nervosa, e como filha da loucura, acrescentou:
– É um tigre!... é um tigre que pretende devorar-me!... livrarei minha alma de suas garras.. . deixar-lhe-ei o meu corpo... ah! sim!... o tigre que se farte no meu cadáver!...
A infanticida meditava no suicídio!...
Porém ela sentiu rumor. Ouviu os passos compassados de alguém que vinha subindo a escada: eram os passos de um velho.
Mariana correu a receber seu pai.
– Meu pai!... exclamou.
O velho recuou dois passos, como sobressaltado, depois cruzou as mãos e disse:
– Graças a Deus!
– Por que, senhor?...
– Porque enfim te vejo alegre, Mariana.
Foi com tão viva expressão de prazer que aquele bom velho agradeceu ao céu a alegria que estava brilhando no rosto de sua filha, que ela mesma não pôde resistir à dor que lhe causava a mentira que iludia seu pai.
Os olhos de Mariana arrasaram-se de água: a mísera começou a soluçar desabridamente, de joelhos, abraçada com as pernas do sensível velho.
– Minha filha! minha querida filha!... que é isto?... bradou então ele; por acaso enganei-me eu?... és sempre incompreensivelmente desgraçada?...
Mariana chorava ainda mais.
– Filha da minha alma, continuou Anacleto chorando também, fala! Derrama
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.