Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Para que o tratara a mameluca com desvelos de mãe e de 'irmã, dando-lhe gozos desconhecidos, a ele, que da primeira infância recordava apenas as carícias raras e tímidas da mãe desmoralizada pelas amásias do marido, e da adolescência e virilidade só tinha a aridez e o austero isolamento da sua vida de padre católico? Como ainda nesta noite, em que o Pimenta lhe participara a próxima viagem a Maués, a presença da rapariga, a sua voz velada e cheia de doçura, despertavamlhe no coração uma emoção nova, uma ternura de criança afagada, um estremecimento fagueiro que o inundava do contentamento de ser amado, de ser o alvo' de todas as atenções duma mulher, de sentir-se protegido, e ao mesmo tempo lhe trazia lágrimas aos olhos com uma grande vontade, reprimida a custo, de banhar com o seu pranto as mãos delicadas daquela criatura bonita e bondosa que lhe velara à cabeceira, como a um enfermo querido. Nessas ocasiões sentia-se bem, sem ambições nem desejos, a paixão transformava-se num afeto doce, sereno, sem sobressaltos, e para viver assim, envenenando-se lentamente, para gozar a presença e os cuidados da moça, de bom grado prolongaria a convalescença. Mas quando à noite a Clarinha se retirava, recaía ele nos ardores da paixão que o queria dominar. A ausência lhe recordava as formas voluptuosas, os lábios rubros, o olhar demoníaco, e a lembrança o mergulhava na mais áspera sensualidade. O regime dietético que seguira, o repouso absoluto a que o forçavam, excitariam o seu temperamento sensual, robustecendo os instintos egoísticos do matuto, criado ao pleno ar, na mais completa liberdade, ou um agente estranho, um ser independente e autônomo tomara a tarefa de o rebaixar a um tal animalismo? Não o sabia, ou antes, acreditava de preferência na constante tentação que o perseguia desde o Seminário e contra a qual lutara sempre vitoriosamente, dominando-a com jejuns e penitências. Mas a triste verdade era que no silêncio da noite cálida, naquele quarto outrora habitado por um padre desregrado e astucioso, longe do mundo e das conveniências sociais, reaparecia o matuto a meio selvagem que saciava o apetite sem peias nem precaução nas goiabas verdes, nos araçás silvestres, nos taperebás vermelhos, sentindo a acidez irritante da fruta umedecer-lhe a boca e banhá-la em ondas duma voluptuosidade bruta. Então era o demônio que o fazia voltar aos tempos idos de mocidade e de fogo para melhor o queimar naquele inferno indescritível de sensualidade. O gozo se tornava necessário e fatal; conveniências do estado, crença religiosa, escrúpulos de homem honesto, tudo cedia ao seu imenso amor. Consumia-se em ardores estéreis, agarrado aos punhos da rede, numa ânsia louca de apertar nos braços um corpo fremente de mulher bonita, e desfalecia por fim, cansado, aborrecido, indignado, enjoado do cheiro a flor de castanheiro que o seu corpo exalava. Isto todas as noites! Com o dia vinha-lhe felizmente a calma, mas uma calma enganadora e perigosa, que não era senão o adormecimento provisório dos sentidos exaustos; e como remédio supremo, como tábua de salvação única, nesse pélago em que se afundavam a sua coragem e a sua virtude, só via a fuga, a partida precipitada daquela nova ilha de Calipso, encantadora e terrível. Reunira todas as forças de sua vontade numa resolução suprema, e marcara a viagem para o dia seguinte, sem atender aos pedidos de Felisberto e de Clarinha que o queriam deter, sob o pretexto de que não estava ainda bastante forte para os incômodos da empresa. Tudo estava pronto, dentro de poucas horas devia largar do porto da Sapucaia, dizendo um eterno adeus à visão sedutora que tanto agitara as suas carnes de vinte e três anos. Mas o inimigo de sua alma não se contentava com pecados de intenção, não estava satisfeito com tormentos infligidos à sua virtude nos estéreis ardores das noites em claro. Queria precipitá-lo duma vez no abismo de que se não volta, e suscitara ao estúpido tapuio a idéia de uma viagem a Maués para salvar as suas frutas e servir a família Labareda. Estava vendo naquela resolução inesperada a obra do demônio da cobiça, vindo em auxílio do demônio da concupiscência. Era um golpe decisivo que o inferno tentava contra a virtude austera do missionário, devotado de corpo e alma à causa santa da religião e do sacrifício, e o missionário, horror! sentia-se de antemão vencido, incapaz de mais longa resistência.

Sim, sentia-se vencido. Viver naquela casa, entre as paredes que haviam testemunhado os amores sacrílegos do defunto padre santo, vendo todos os dias a admirável criatura, que se apoderara do seu coração, enchendo os olhos das suas formas voluptuosas e do seu sorriso meigo, saber-se ali sozinho com ela, porque o Felisberto não entrava em linha de conta, longe do mundo, livre de olhares invejosos e importunos, era um sacrifício superior às suas forças.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...107108109110111...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →