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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E ar a Rosa ergueu-se, levantando a cabeça. Brilhava-lhe no rosto, embaciado pelas lágrimas, o reflexo de uma grande e dolorosa resolução. Todas as vistas se voltaram para ela; estava pálida e comovida, seus lábios tremiam; mas afinal, vencendo a onda vermelha do pudor que a sufocava, balbuciou:

— Tenho por força de casar com ele... Estou grávida!

Foi um choque geral. Até o próprio cônego, para quem o estado da moça não era segredo pasmou de ouvi-la. Manuel caiu sobre uma cadeira, fulminado com os olhos abertos, arquejante. O Dias fez-se da cor de um cadáver. E Raimundo cruzou os braços; enquanto Maria Bárbara espumando de raiva saltava para junto da neta, escondendo-a com o corpo, como se quisesse defendê-la do amante.

— Nunca! Nunca! bramiu a fera. Grávida?... Embora! Antes monta ou prostituída!...

— Pchit... fez o cônego. E disse em tom misterioso e suplicante:

— Mais baixo! .. mais baixo!... Olhe que a podem ouvir da rua, D. Babita! ...

—Tu estás de barrida?... exclamou por fim Manuel, erguendo-se, vermelho de cólera.

E arrancou para a filha com os punhos cerrados.

Raimundo repeliu-o, sem lhe dar palavra

— O senhor é um malvado, invectivou o pobre pai, afastando-se para um canto a soluçar.

O rapaz foi ter com ele e pediu-lhe humildemente que o perdoasse e lhe desse Ana Rosa por esposa.

O negociante não respondeu e pôs-se a praguejar entre lágrimas

— Calma! calma! aconselhou o cônego, passando-lhe o braço no ombro. Vamos ver o que se pode arranjar!... só para a monte não há remédio... Mente'm hominis spectate, non frontem!...

— Arranjem lá seja o que for, menos o casamento de minha neta com um negro!

— Sim senhora, D. Maria Bárbara... Mínima de malis!...

E o cônego, depois de tomar uma pitada, voltou-se cortesmente para o Dias:

— O senhor, ainda há pouco, pediu a meti compadre a mão de minha afilhada, não é e verdade?

— Sim senhor.

— Pois o seu pedido está de pé' e eu lhe darei a resposta amanhã à tarde. Pode retirar-se.

— Por um.

Diogo não lhe deu tempo para mais. Conduziu-o até à ponta e segredou-lhe rapidamente:

— Espere por mim no canto da Prensa Vá!

O Dias fez um cumprimento e saiu.

O cônego tornou a meio da sala, para dirigir-se a Raimundo.

— Quanto aqui ao Sr. Doutor, diz que está disposto a reparar o seu cor—e.

— É exato.

— Sim senhor, é muito natural . é muito bonito até!... Mas,... continuou, estalando os lábios, diz por outro lado o meu compadre, diz a senhora D. Maria Bárbara e diz este seu humilde servo, que V. Sª não está no caso de reabilitar ninguém!... Suspecta malorum beneficia!... O que V Sª chama reparação, longe de salvar, prejudicaria a aviltada ainda mais a vitima!...

— Canalha! gritou Raimundo, perdendo de todo a paciência e agarrando o padre pelo pescoço - Esmago-te aqui mesmo bandido!

E repulsou-o das mãos, com medo de matá-lo.

Manuel e a sogra acudiram, cheios de indignação contra Raimundo; enquanto o cônego puxava para o lugar a sua volta de rendas e endireitava a batina, resmungando:

— Espere lá, meu amigo! isto não vai à força!... Hoo avetart Deus... Sabemos perfeitamente que V. Sª é muito boa pessoa... Apre! Mas... há de concordar que não tem o direito de pretender a mão de minha afilhada! Nem a murros me obrigará a negar que o senhor é...

— Um cabra! concluiu a velha com um berro. E um filho da negra Domingas! alforriado à pia! É um bode! É um mulato!

— Mas afinal, com todos os diabos! a que pretendem chegar? gritou Raimundo, batendo com o pé. Desembuchem!

— É que, respondeu o cônego, inalteravelmente; nós, para evitarmos que o escândalo prossiga, vamos oferecer-lhe de n ovo o único alvitre a seguir, e olhe que poderíamos, sem mais delongas, processá-lo em regra, se assim o entendêssemos!... Mas... para que negar?... não acreditamos que o senhor abusasse da inocência desta menina!... aquela declaração de há pouco nada mais foi do que um simples estratagema, urdido por V. Sª, com o fim de realizar os seus intentos. Enganou-se! Sabemos que ela está tão pura como dantes! O que se tem a fazer, por conseguinte, é isto: O doutor vai retirar-se quanto artes desta terra, retirara-se imediatamente, sob pena de ser justiçado corno o entendermos melhor!

Raimundo foi buscar o chapéu. O cônego atalhou-lhe à saída.

— Então! Que decide?

— Fomente-se! respondeu-lhe aquele, e encaminhou-se para Ana Rosa, que chorava, encostada à parede.

— Ainda nos resta um meio… A senhora é maior. Amanhã terás notícias minhas. Juro que serei seu esposo!

— E eu juro que sou tua! exclamou ela, lançando-se para acompanhá-lo até à ponta.

— Cale-se! ordenou Manuel, obrigando-a a retroceder com um empurrão. — Bem!... resmungou o padre, logo que rendo saiu. Seja!...

Ana Rosa correu a fechar-se no quarto.

(continua...)

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