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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Contavam dele façanhas terríveis. O bispo não conseguia corrigi-lo.

Olímpia escreveu ainda duas cartas a Gregório, sem ter melhor êxito que das primeiras. Na última jurara que, se ele não lhe aparecesse nesses dias, nunca mais lhe daria uma palavra.

Foi então, isto é, seis meses depois do rompimento de Gregório com Olímpia, que o padre Beleza o convidou para uma festa.

Era o batizado da filhinha de uma das suas comadres.

O rapaz aceitou e foi, sem prever que esse passo tinha de representar um importante papel na sua vida.

Só depois de lá estar, soube que a madrinha da criança se chamava Júlia Guterres.

CAPÍTULO XXIX

O BATIZADO

A casa da festança era em Catumbi, pouco adiante do lugar até onde mais tarde havia de chegar a linha de bondes.

Um casarão antigo e abafadiço, com janelas de peito e dois degraus de cantaria à porta da rua.

Para se chegar lá, subia-se uma pequena ladeira à esquerda, enquanto se deixava à direita um correr de casas, que lá se iam estendendo, até confinarem com o pardacento e melancólico muro do cemitério de S. Francisco de Paulo.

Seriam quatro horas da tarde quando os dois se apearam do carro que os conduzia. O padre Beleza deu o braço a Gregório e seguiram.

— E ali! disse ele, apontando para o casarão. O outro olhou indiferentemente na direção indicada pelo companheiro.

O tempo estava duvidoso; parecia vir chuva. O céu cor de pérola, apenas em alguns pontos mais vizinhos do horizonte abria rasgões de uma claridade desbotada e brancacenta.

Os montes de Santa Teresa, atufados na verdura felpuda e trêmula, enchiam-se de sombra. Palmeiras, destacadas e solitárias, abriam para o céu, aqui e ali, as suas Estrelas irrequietas e murmurosas. Toda a natureza se ressentia de um triste aspecto de recolhimento; só os carrapateiros quebravam a uniformidade melancólica da verdura com o seu verde Paris, cru e alegre. Em vários lugares, por entre o relvejar do capim, aparecia a custo uma nesga de terra avermelhada, cor de carne em conserva. Mais para o sopé dos montes, casinhas, pintadas de claro, apareciam no sombrio das matas com os ângulos das suas fachadas de madeira.

Não havia raios de sol, nem sombras projetadas no chão. As montanhas desenhavam minuciosamente no fundo plúmbeo do céu o seu contorno acidentado e guarnecido de árvores.

Gregório e o companheiro acabavam de entrar na casa do batizado.

Veio recebê-los à porta um sujeito gordo e muito alto, cheio de vermelhidão, olhos claros, azulíssimos, cara raspada, pouco cabelo na cabeça e o pouco que havia quase todo branco. Esse sujeito tocava trompa nas orquestras de teatros e, pelo entrudo, trabalhava de enderecista para as sociedades carnavalescas. Era homem popular, prezava-se da estima de algumas pessoas de gravata lavada, mas não desdenhava a amizade dos colegas.

— Olá! olá! Viva o nosso reverendo padre Beleza! exclamou ele. E puxou familiarmente o padre para o corredor, enquanto esse lhe apresentava Gregório. Vão subindo! vão subindo! Aqui não se faz cerimônias! Estejam em sua casa! A troça está toda na dança lá em cima... Vão entrando!

Ouvia-se com efeito barulho de música.

Gregório, ao chegar à sala, sentiu-se constrangido. Não conhecia aquele meio. Nunca havia penetrado em casa de uma família de artistas brasileiros; ignorava da existência desse gênero de pessoas, incontestavelmente dignas, mas entre as quais a pilhéria decotada tem bom curso, a dança toma um caráter assombroso de cancã, e as mulheres discutiam simultaneamente sobre tudo, desde os assuntos mais familiares e mais castos até às últimas extravagâncias da meretriz que estiver na moda.

Ninguém todavia fala tanto em conveniências, e ninguém se esforça tanto para cumprir com os rigores da hospitalidade. As pequenas obrigações da cortesia, nessas casas, tomam às vezes as proporções de verdadeiros suplícios — obrigamnos a comer e a beber sobre posse. Não nos consentem rejeitar nada do que nos oferecem. Há uma febre terrível de obsequiar.

Gregório todavia passara quase despercebido, porque um acontecimento prendia a atenção dos que não dançavam. Era a chegada do pequenino, que acabavam de batizar, e mais a dos padrinhos e dos convidados que o acompanharam à igreja. Havia reboliço por toda a casa.

Em torno do bebê forma-se um grupo enorme de homens e mulheres, sôfregos por fazerem festinhas ao pequenino herói da festa. Este toscanejava babando-se, a resmungar, fatigado pela cerimônia do batizado.

Daí a pouco chamaram em gritos para a mesa.

Houve então um rumor ainda mais alegre, e as pilhérias da ocasião choveram de todos os lados.

Entretanto, Gregório era nesse momento apresentado à dona da casa pelo padre, com exagerados rasgos de cortesia.

(continua...)

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