Por Aluísio Azevedo (1884)
Violou uma donzela, é verdade! Mas deveriam responsabilizá-lo por isso?...Seria ele o verdadeiro culpado ou simplesmente uma vítima?...Falava-se tanto nos costumes de toda aquela gente do Coqueiro!...rosnavam com tanta insistência sobre os planos, os cálculos, as armadilhas tramadas ao dinheiro do rapaz!...De que lado estaria a razão?...E, quando se revoltassem toso contra o infeliz, teria ela, Hortênsia, o direito de fazer o mesmo?...Não lhe caberia grande parte na culpa de que o acusavam? Não poderias ela, só ela, ter evitado aquilo tudo com um simples palavra de amor?...Por que , afinal o que lançou Amâncio nos braços da tal rapariga?...Foi a paixão? foi a beleza? Foi o talento? — não! foi unicamente o despeito! Foi o delírio, o desespero de um coração repudiado! - Sim! sim! Tudo aquilo sucedera, porque ela o repelira; porque ela, a imprudente, fecharalhe os braços, quando o desgraçado, louco de paixão, lhe suplicava por um bocado de amor, um pouco de caridade!...
Antes tivesse cedido!...
E embravecia-lhe o pranto. — Antes tivesse, porque, se assim fosse, o pobre moço, com certeza, não pensaria na outra! — Mas o infeliz, coitado! viu-se aflito, enraivecido, sofrendo, saber Deus o quê! E sucumbiu, ora essa! Sucumbiu como aconteceria a qualquer nas mesmas condições! Sucumbiu por desalento, talvez por vingança, talvez por não ter outro remédio — Não! definitivamente sentia muita pena daquele desditoso rapaz!
Amava-o agora. Seu espirito atrasado e muito brasileiro descobria nele uma vítima da fatalidades amorosas, e esse prisma romântico emprestava ao estudante uma irresistível simpatia de tristeza, uma deliciosa atração de desgraça.
Hortênsia sonhava-o “pálido, melancólico, desprezado no fundo de umas prisão, tendo por leito — um catre abominável, por única luz — uma trêmula aresta do sol que se filtrava pelas grades negras do cárcere”.
E aquela encantadora figura de prisioneiro, com a cabeça languidamente apoiada nas mãos, os olhos úmidos de pranto, os cabelos em desalinho sobre a fronte, — a penetrava toda, enchia-lhe o coração, num aflitivo trasbordamento de lágrimas.
— Oh! Aquela adorável figura de vinte anos sofria tudo aquilo porque a amava! - porque uma paixão insensata lhe entrara no peito; sofria porque Hortênsia recusaras os beijos que o desventurado lhe pedira com tanta ansiedade.
Pobre moço! Pobres vinte anos! Dizia ela quase com as mesma frases do marido. — Mas por que se haviam de ter visto?...por que se haviam de amar?...
E a mulher do Campos, que até aí não sentira dificuldade em resistir às seduções do estudante, agora, fascinada pela dramatização daquela catástrofe que o heroificava, via-o belo, indispensável, grande na sua situação especial, conhecido das mulheres, temido e odiado dos homens, vivendo na curiosidade do público, percorrendo todas as fantasias, sobressaltando todos os corações.
E o contraste da sofredora condição em que o vias presentemente com as atitudes brilhantes que ele outrora estadeara naquela própria casa, quando, de taça em punho, espargia a sua bela palavra quente e sonora, prendendo a atenção de velhos e moços, dominando, conquistando, — esse contraste ainda mais a arrebatava para ele com toda a violência de uma alucinação.
Não mais se possuiu, — um desgosto mofino apoderou-se dela; ficou insociável e muito triste; entregou-se a longas leituras místicas, acompanhando com interesse amores infelizes, lentos martírios da alma, que só terminavam no esquecimento da morte ou do claustro. Decorou entre lágrimas a carta do réu.
— Como ele me amava! Dizia soluçando, — como ele sofrias, quando arrancou do coração estas palavras , ainda quentes do seu sangue!
De sorte que, ao lhe comunicar o marido a resolução de escrever a Amâncio, remetendo-lhe a terrível carta denunciador prevenindo-o de que lhe retirava a sua amizade, ela, com uma agonia a sufocá-la, resolveu também escrever ao moço uma carta que servisse, ao menos, para suavizar o golpe da outra.
* * *
O estudante, no dia seguinte, recebia na prisão as duas cartas.
Não se pode determinar qual delas o surpreendeu mais; notando-se, porém, que a do Campos produziu completo o efeito a que se propunha; ao passo que a outra, em vez de o consolar, enraiveceu-o
— Pois aquela mulher ainda não estava satisfeita e queria insistir nas provocações?...Ela talvez fosse a culpada única de tudo que de mau lhe acontecera! — As coisas não tomariam decerto o mesmo caminho, se a maldita não lhe fizesse as negaças que fez e não lhe acordasse desejos que se não podiam saciar! — E agora?...além de perder a amizade do Campos, justamente quando mais precisava dela, havia de suportar a prosa lírica da Sra. D.Hortênsia!...”Que estava arrependida, que o adorava, que seria capaz de tudo por lhe dar um momento de ventura e que o esperava de braços abertos, logo eu ele se achasse em liberdade.”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.