Por Aluísio Azevedo (1897)
— Ah! é justamente para chegar a esse ponto que lhe contei tudo mais...
E, depois de descansar um pouco, continuou, com a voz sempre arrastada:
— Calcule o senhor que um dia encontrei sobre a cama de Ambrosina um bilhete, na qual me comunicava ela haverse mudado para a companhia de Gabriel. Fui lá; minha filha convidoume para ficar, eu não quis, e isoleime na minha casinha do Engenho Novo. Foi então que me apareceu o Alfredo Bessa. o Alfredo mostrou interesse por mim, ia fazerme companhia, conversar, encarregarse de meus negócios. Era um bom amigo; um dia propôsme ficar com ele, e eu aceitei...
E, como Gustavo acabava de preparar um cigarro, ela tirou uma caixa de fósforos debaixo do travesseiro, passoulhe em silêncio, e continuou:
— Depois da morte do Alfredo, e como fosse escasseando o trabalho, mudeime para cá, onde com o aluguel da casa do Engenho Novo e o resultado de meu trabalho, tratava da vida e da educação de uma órfã, que eu havia tomado à minha conta.
— Digame uma cousa, interrompeu Gustavo; esse Alfredo, de que fala a senhora, não foi retratado depois de morto?...
— Foi, porém muito mal; por um moço, que um freguês nosso nos levou à casa. Ficou uma borracheira...
— Bem; mas o que é feito daquela menina de olhos vivos, que por essa ocasião estava em sua companhia!... Aquela, a quem o moço do retrato prometeu retratar igualmente?...
— Estela! Pois essa é que é a minha pupila; mas como sabe o senhor disso?...
— É cá por uma cousa... Vamos adiante.
— Essa menina ia verme de vez em quando, mas era interna no colégio das irmãs de caridade em Botafogo. Eu davalhe uma pensão com o aluguel da casinha do Engenho Novo, porém há quatro meses que as cousas mudaram inteiramente de figura, há quatro meses que não pago a pensão; a diretora escreveume várias cartas, prevenindo que me ia remeter a pequena; eu não tenho onde a receber, nem posso tampouco ir lá entenderme com ela. É um inferno!
— E por que não a recebe na sua casa do Engenho Novo?...
— Aí é que bate o ponto! Depois que Ambrosina partiu para Europa, nunca mais me deram novas dessa ingrata, e, como tinha, eu a minha filha adotiva, fazia por esquecerme da outra; mas, eis o demo, mando uma vez receber o aluguel da casinha do Engenho Novo, e o que recebo, em vez de dinheiro, é a notícia de que a casa fora vendida e que era agora o novo dono quem nela morava. Indago, procuro descobrir o que queria tudo isso dizer, e chego afinal à conclusão de que a casa fora vendida por Ambrosina, que havia chegado do estrangeiro com o nome de condessa não sei de quê! — Mas, a casa não era sua?
— Sim; havia, porém, sido comprada em nome de minha filha... para escapar aos credores de meu marido...
— Sua filha! Condessa! Ah! exclamou Gustavo; compreendo! É a Condessa Vésper?
— Justamente! é isso!
— Ah! essa sujeita é sua filha?... repisou Gustavo, muito preocupado. E o que quer a senhora que lhe faça agora?
— Que o senhor me escreva uma carta a ela dirigida, e dê as providências para que a carta seja entregue em mão própria...
— Isso hoje será difícil, porque a Vésper tem uma festa no Alcazar; mas vou ver se consigo.
— Está bem, concordou a lavadeira; contudo que o senhor prepare a carta agora mesmo, e não se descuide de entregála quando for possível.
— Pode ficar descansada.
E Gustavo, depois de inteirado do que a velha queria dizer à filha, escreveu a carta, e saiu, prometendo voltar com qualquer resposta.
Eis aí o que deu motivo ao bilhete, que tanto sobressaltou Ambrosina na noite dos seus triunfos.
Entretanto, o rapaz, ao deixar o cubículo de Genoveva, levava no coração um motivo de grande contentamento; era o que acabava de saber com respeito a Estela, o mocinha de olhos bonitos, que tanto o havia impressionado quando a viu pela primeira vez no colégio de irmãs de caridade em Botafogo e logo depois por ocasião do malsinado retrato de Alfredo; e a qual, a partir daí, nunca mais deixara de associarse aos sonhos do poeta como noiva eleita para a futura felicidade de homem público. Ia vêla afinal, falarlhe diretamente, talvez até receber de seus lábios de donzela uma esperança de amor.
Á noite desse mesmo dia foi ao Alcazar, armado com o bilhete que conseguiu fazer ir ter às mãos de
Ambrosina, na manhã seguinte, perfeitamente seguro do que tencionava pôr em prática a respeito de Estela, correu ao seu editor, muniuse com o que aí tinha em dinheiro, tomou um tílburi e seguiu para o colégio das irmãs de caridade. Não lhe foi possível ver a pupila da lavadeira, prometeramlhe, porém, que às cinco da tarde poderia falarlhe em presença da diretora, ou da irmã que estivesse de semana. Saldou a conta de Genoveva e, propondose pagar um mês de pensão adiantado, soube com surpresa que a sua protegida permanecia ultimamente no colégio, não já na qualidade de aluna, mas de simples empregada no serviço doméstico do estabelecimento.
Retirouse triste, e durante o resto desse dia nada mais fez do que esperar o momento da prometida entrevista.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.