Por Inglês de Sousa (1891)
Os terrores que no Seminário, nas longas vigílias das suas tristes noites de recluso, o perseguiam, repetindo-se em Silves nas horas de ócio, nas agitações doloridas dum espírito desocupado, haviam voltado com maior intensidade, porque vinham acompanhados da convicção de que estava vencido pelo espírito maligno, auxiliado pelo negrume brilhante dos olhos da mameluca. Ardera em febre de desejos, e desmaiara de terror à idéia duma condenação infalível, que se julgava incapaz de evitar. Revolvera-se na rede, abraçara-se aos punhos, cobrira-os de beijos doidos num espasmo voluptuoso, como se sentisse ao pé de si o corpo da Clarinha, macio e flexível como o linho que apertava nos braços. Mas sempre lhe parecera que a rede se transformava num braseiro e que as garras do demônio se lhe entranhavam nas carnes palpitantes, longa e dolorosamente.
Sim, foram noites dum sofrer sem fim! A castidade guardada por muito tempo no meio das baixas devassidões, de que fora testemunha na infeliz e atrasada sociedade em que vivera os últimos tempos, desequilibrava-lhe o cérebro num delírio de gozo, numa sede de amor sensual e ardente que ameaçava tornar-se irresistível, obscurecendo-lhe a razão, e fazendo-lhe perder a noção da dignidade do sacerdócio que tanto prezava! A ignorância quase completa da mulher física desregrava-lhe a imaginação, prometendo-lhe gozos supremos e inesgotáveis delícias, um mundo desconhecido de prazeres inexcedíveis no delírio da sua carne jovem e vigorosa. Mas o inferno! Essa crença inabalável numa vida eterna de suplícios indescritíveis, que bebera no leite da ama e se lhe avigorara no Seminário, enchia-o dum terror profundo que o aniquilava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.