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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E, depois de uma pausa, declarou que, desde o momento em que pensara no casamento de sua filha, fora sempre com sentido no futuro e na felicidade dela. “Não fossem supor que ele queria casá-la com algum príncipe encantado ou com algum sábio da Grécia!... Não senhor! o que queda era dá-la a um homem de bem e trabalhador como ele; mas, com os diabos! que fosse branco e que pudesse assegurar um futuro tranqüilo e decente para os seus netos! Vai ele então - pensou no Dias; lá lhe dizia não sei o que por dentro que ali estava um bom marido para Anica.

Um belo dia, descobriu da parte do rapaz certa inclinação por ela e ficara satisfeito, prometendo logo, com os seus botões, dar-lhe sociedade na casa, se porventura se realizasse o casamento... Ora, bem viam os circunstantes, que, em tudo aquilo, Manuel só tinha em vista o bem da rapariga... nem acreditassem que houvesse por aí pais tão desnaturados que chegassem a desejar mal para os seus próprios filhos! Qual o quê, coitados! o que às vezes queriam era prevenir o mal, que só depois havia de aparecer! Como agora poderia ele, que só tinha aquela, que só possuía a sua Anica, que a educara o melhor que pudera, que embranquecera a cabeça a pensar na felicidade daquela filha; ele, que lhe fazia todas as vontades, todos os caprichos! ele, que seria capaz dos maiores sacrifícios por amor daquela menina!.. como poderia pois contrariá-la causar-lhe mal, só por gosto?. . Então os senhores achavam que isso tinha cabimento?... Ele desejava vê-la casada, por Deus que desejava! não a criara pra feira!... mas, com um milhão de raios, desejava vê-la casada em sua companhia! Queria vê-la feliz, satisfeita, cercada de parentes e amigos; mas, boas! na sua terra, ao lado de seu pai! Ora essa! pois então um homem por estar velho, já não tinha direito ao carinho de seus filhos?... Ou quem sabe, se a filha por estar mulher já não devia saber do pai? - Morre p'r'aí, calhamaço, que me importa a mim! - Não! que isso também Deus não mandava!... Queria ir se embora? queria deixar o pobre velho ali sozinho sem ter quem lhe quisesse bem sem ter quem tratasse dos seus achaques?... podia ir! Que fosse! mas esperasse um instante' que ele fechasse os olhos primeiro, sua ingrata!”

E Manuel, enxugando os olhos na manga do paletó concluiu com a voz trêmula:

— Ai têm os senhores o que eu pensava fazer; porem vai o diabo chega do Rio um meu sobrinho bastardo um filho do defunto mano José com a preta Domingas, que foi sua escrava! Como era de esperar visto que sempre me encarreguei dos negócios de meu irmão e ultimamente dos de meu sobrinho, hospedei-o cá em casa Raimundo afeiçoou-se à minha filha ela a modos que lhe correspondeu, ele vem pede-ma em casamento; vou eu - nego-lha! Ele quer saber o porquê e eu dou-lhe a razão com franqueza! Pois bem! Vejam! este homem deixa de fazer uma viagem, que, para me iludir, fingiu que ia fazer, e, depois de andar por aí a esconder-se de todos, falta à sua palavra de honra, e...

— Senhor, gritou Raimundo.

— Senhor, não! que vossemecê deu-me a sua palavra em como nunca procuraria casar com Anica! Por conseguinte digo e sustento: depois de ter faltado à sua palavra de honra vem astuciosamente raptar minha filha! Será isto legal?! Não haverá nos códigos desta terra uma pena para semelhante abuso?!..

— Há, disse o rapaz, reconquistando o sangue frio, há, quando o delinqüente se nega a reparar o delito com o casamento.. Eu, porém, não desejo outra coisa!...

— Iche! disparatou Mana Bárbara, saltando em frente. Casar minha neta com filho de uma negra?! Você mesmo não se enxerga!

Manuel sentiu-se embaraçado.

— Apelo, suplicou, para a consciência de cada um! Coloquem-se no meu lugar e digam o que fariam!... Mas parece-me que nós o que devemos é acabar com isto e evitar um escândalo maior! Compreendo perfeitamente que o Dr. Raimundo não tem culpa da sua procedência e' como é um homem de juízo e de bastante saber, espero que a pedido de nós todos, deixará o Maranhão quanto antes!...

— Amém!... aprovou o cônego

— E eu, desde já, propôs Luís. obedecendo a um sinal do guia peço a mão da senhora D. Anica

— Não quero! exclamou Ana Rosa, ainda mesmo que Raimundo me abandone!

— É uma injustiça que me faz, observou este último à moça. Sei perfeitamente cumprir com os meus deveres!

— Como com os seus deveres?!... interrogou Maria Bárbara, refilando os dentes

— Sim, minha senhora com os meus deveres!

— Então o senhor não parte, definitivamente?! interveio Manuel.

— Juro que não me retirarei do Maranhão, sem ter casado com sua filha!

respondeu o rapaz, calmo e resoluto.

— E eu declaro, berrou a velha, que você não há de casar com minha neta enquanto eu viva for!

— E eu retiro a minha bnção de minha afilhada, se ela não obedecer a sua família... reforçou o cônego.

Raimundo cravou-lhe um olhar, que perturbou o padre.

(continua...)

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