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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

E acrescentou, encaminhando-se para uma porta que havia na sala:

- Eu fico aqui escondido por detrás desta cortina. Receba-o sem o menor escrúpulo, porque a senhora não está só.

- Faça entrar meu primo, ordenou Branca ao criado.

Daí a pouco Aguiar estava defronte dela.

- Que deseja? perguntou a senhora, vendo que a visita não se resolvia a falar.

- Venho receber a confirmação do que há dias a senhora me disse.

- Ora essa! De que espécie de confirmação fala o senhor?

- Da confirmação das suas últimas palavras. Não quero que me pese na consciência a menor sombra de remorso pelo que vou fazer...

- Contra quem?

- Contra a senhora e contra seu marido.

Branca, por única resposta, apontou-lhe a porta, como da primeira vez. - Pense um instante! disse ele ainda. Veja bem o que faz!...

- Rua!

- Branca!

- Saia! Já lhe disse!

- Mas repare que a senhora me obriga a ser pior do que sou!

- Se não sair, mando-o despejar lá fora pelo criado!

- Sim?! Pois não sairei!

- Hein?!

- Não saio, porque não quero!

E, pondo o chapéu na cabeça:

- Já não se trata aqui de pedir amor em troca de amor; agora trato apenas de exigir o que me compete de direito! Quero para aqui o que me devem!

- Miserável!

- Oh! pois não! a senhora entende que me deve humilhar a seu gosto e eu devo ficar de cabeça baixa! Engana-se! Por bem sou capaz de todos os sacrifícios; por mal sou capaz de todas as crueldades. Já não é a recusa do seu amor o que me revolta; farte-se com ele quem quiser; mas o seu atrevimento, a sua insolência, o seu orgulho mal entendido! Branca, lívida e trêmula, mas sem dar uma palavra, encaminhou-se para a mesa onde estava o tímpano, com a intenção de chamar um criado.

- É inútil! observou Aguiar, cortando-lhe o passo; é inútil fazer vir alguém, porque eu não sairei. Já não é com a senhora que tenho de me entender e sim com o seu marido!

E, sacando do bolso algumas letras:

- Exijo o pagamento destas letras ou elas serão protestadas!

Nisto, porém, afastou-se o reposteiro do quarto, onde estava escondido o Coruja, e Aguiar viu com espanto surgir o vulto maltrapilho do professor e encaminhar-se tranqüilamente para ele com um terrível sorriso nos lábios.

A sua primeira menção foi de sair, mas o outro o deteve com um gesto cheio de delicadeza.

- Espere, disse, o senhor vai imediatamente ser embolsado do que lhe deve o marido desta senhora. Fui encarregado por ele de tratar disto.

O Aguiar mediu-o de alto a baixo com um olhar em que transparecia mais decepção do que altivez. André, sem se alterar. afastou-se e voltou depois com um grosso maço de dinheiro.

- Faça o favor de verificar se está certo, acrescentou.

E, como o outro hesitasse ainda:

- Então, vamos, confira!

E, para o animar, principiou ele próprio a contar o dinheiro, nota por nota.

- Bem! fez, logo que estava a soma conferida; creio que agora já ninguém lhe deve nada nesta casa. Pode retirar-se.

Aguiar, muito pálido e constrangido, tomou o chapéu com a mão a tremer e encaminhouse para a saída, sem ânimo de levantar os olhos sobre nenhum dos dois outros.

Entretanto Branca presenciara isto imóvel e com a vista presa ao Coruja, como se contemplara um Deus.

André foi acompanhar o outro até à porta da rua e disse-lhe, empurrando-o brandamente para fora de casa:

- Agora, muito cuidadinho cem a língua, porque não é só com Teobaldo que terás de te haver! A respeito do que se passou aqui, nem uma palavra! compreendes? Anda. Vai-te embora, desgraçado!

Feito isto, voltou tranqüilamente ao seu sótão, fechou a gaveta da sua secretária, que ele deixara aberta com a precipitação de buscar o dinheiro, e desceu ao gabinete de Teobaldo.

Branca, porém, foi ao encontro dele e, passando-lhe os braços em volta do pescoço, deulhe um beijo em pleno rosto e desatou a soluçar.

Mas a porta do gabinete acabava de abrir-se, e Teobaldo aparecia defronte dos dois com um flamejante olhar de leão cioso.

XVII

Com a chegada de Teobaldo, Branca e o Coruja separaram-se instintivamente, enquanto aquele, tirando da algibeira o seu revólver, precipitou-se sobre o amigo.

A mulher lançou-se entre eles, tentando desviar o tiro, mas a bala partiu e foi cravar-se no calcanhar esquerdo de André, que caiu, amparando-se à parede.

- Fizeste mal... disse a vítima com um gemido.

E Branca, soltando um grito, exclamou para o outro:

- Desgraçado! Acaba de ferir o salvador da sua e da minha honra!

- Expliquem-se!

Branca apresentou-lhe as letras do Aguiar e acrescentou:

- Já que o senhor assim o quer, saberá tudo. Fiz o possível para não lhe falar em semelhante coisa; vejo, porém, que era muito mal empregado o meu escrúpulo.

- Deixemos-nos de palavras e venham os fatos! Quero a explicação do que acaba de se passar aqui e quero saber a razão por que essas letras se acham em seu poder! - Estas letras aquele pobre homem resgatou-as ainda há - Resgatou-as? E por quê?

- Porque assim era preciso, como aliás já o senhor sabia.

- Mas, afinal, porque era necessário resgatá-las?

(continua...)

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