Por Aluísio Azevedo (1882)
— Ah! é você?... disse ela com o ar fatigado.
— Sei que não devia vir, respondeu ele, da porta, sem largar o chapéu; já não sou desejado...
E depois de observar o efeito que produziu a sua frase em Olímpia, acrescentou, pondo uma expressão de queixa nas palavras:
— Agora chego sempre cedo de mais!... Reconheço que só posso ser agradável pela ausência!...
A caprichosa não respondeu, e ficou a olhar demoradamente para as unhas da mão direita. Houve um silêncio de alguns segundos.
Gregório afinal aproximou-se dela e passou-lhe um braço na cintura.
— Para que me tratas deste modo? perguntou ele. Que fiz eu para merecer tamanha indiferença... Por que me fazes padecer tanto, Olímpia?... Sabes perfeitamente que és a única consolação que me resta na vida! a minha única ventura, minha única...
Ela o interrompeu para lhe perguntar onde se encontraria um jardineiro que se quisesse encarregar da chácara, porque o preto velho que lhe fazia esse serviço, dera ultimamente para beber e estava insuportável; ainda na véspera se apresentara tão embriagado que, na ocasião de entrar no jardim, fora de encontro a um belo jarro de louça vidrada e lançara-o por terra.
Olímpia não se podia conformar com semelhante perda! O seu querido jarro fazia imensa falta na chácara! Ela o estimava muito! Fora um presente do Porto, de um amigo de seu pai. Aqueles jarros ali estavam havia anos; era preciso que viesse a lesma do jardineiro para reduzir um deles a cacos!
— Bruto! resumiu ela, empenhada na sua indignação! Quebrar um objeto que eu prezava tanto!
As palavras da filha do comendador caíram sobre Gregório como um jato de água fria dentro de uma caldeira a ferver. Ele empalideceu de raiva ou talvez de vergonha, e fez um movimento brusco para sair.
— Já vai? perguntou a rapariga, com um ar entre dedicado e indiferente.
— Decerto! respondeu Gregório; que fico eu fazendo aqui?...
— Então não se esqueça do que lhe disse; e, se puder descobrir um jarro parecido com o que ficou na chácara, tenha a bondade de comprá-lo. Olhe, o melhor é ir lá abaixo vê-lo antes de sair. Venha comigo; faço muito empenho nisto! Venha!
E largou da sala, a encaminhar-se para a chácara.
Gregório prometeu ir em outra ocasião; naquele momento estava com pressa.
Olímpia dispunha-se a insistir no seu pedido quando a criada apareceu, muito esbaforida, dizendo que o Guterres acabava de expirar.
— Coitado! Já!? perguntou a senhora, com o ar de quem esperava por aquela notícia. E voltando-se para Gregório:
— E um vizinho aí defronte. Estava muito mal. Há quinze dias que penava!...
— Ah! balbuciou Gregório.
— Bom homem. Muito sossegado, muito agarrado à mulher. Ele esteve aqui, dizem, por ocasião da morte de papai, e ofereceu-se para ajudar no que fosse necessário.
E depois de uma pausa, acrescentou:
— A Júlia, coitada! deve estar muito aflita... E a mulher, explicou ela, em resposta a um gesto de Gregório. Bela moça, muito dada, muito amiga de obsequiar.
Já esteve aqui duas vezes. Eu vou fazer-lhe companhia esta noite...
— Talvez isso não lhe faça bem!... observou Gregório.
— Ora! desdenhou Olímpia. Já não estou doente; além de que, tenho obrigação de ir. Ela se mostrou sempre tão minha amiga!... Está a mandar-me constantemente lembrançazinhas de amizade. Vou mostrar-lhe um açafate de papel, com o retrato dela. Deu-me na semana passada. Quer ver?...
Gregório disse que sim por comprazer.
Olímpia foi buscar o açafate. O retrato, em fotografia, estava no fundo, entre uma cercadura de papel bordado.
— Eu conheço esta mulher! disse Gregório logo que olhou para o retrato.
Esta é a Júlia Guterres!
— Ah! já a conhecia?
— Já. Uma atriz...
— E exato, ela foi do teatro; mas o marido não quis que continuasse. Você algum dia a viu representar? — Não.
Gregório saiu afinal, resolvido a não tornar ao lado de Olímpia.
Uma semana depois, recebeu dela uma carta. Pedia-lhe que aparecesse. Ele estava um ingrato; também isso não admirava, porque, segundo o que Olímpia ouvira dizer, Gregório não perdia uma noite do Alcazar, e andava apaixonado por uma francesa. Ela sabia de bonitas coisas a seu respeito!" Falou em certa orgia no Hotel Paris. A carta terminava pedindo ao rapaz que fosse domingo jantar com Olímpia. A viúva Guterres estaria presente e desejava conhecê-lo. Gregório leu cinco ou seis vezes aquelas palavras.
— Devia ou não devia ir?...
Não foi. Mandou um bilhete, pedindo desculpas, e não apareceu.
Um mês depois, nova carta. Era mais extensa e mais recriminatória; Olímpia queixava-se amargamente do proceder de Gregório e pedia-lhe ternamente que a fosse ver.
Ele ainda desta vez não foi.
Entretanto Gregório principiava a ganhar reputação de estróina. Um dos seus companheiros da pândega era o padre Beleza; padre ainda moço e levado da breca. À noite metia-se em roupas seculares, escondia a coroa e atirava-se para o Alcazar, onde floresciam nesse belo tempo as pernas da Aimé. O Beleza era quase sempre cabeça de motim e jogava capoeira como os mais entendidos da matéria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.