Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas, nesse mesmo dia, quando o Campos se dispunha a sair de casa, para se entender com o Saldanha Marinho, que parecia resolvido a tomar a causa de Amâncio, entregaram-lhe uma carta.
Era o Coqueiro e dizia simplesmente: “Para que V. S. ª não continue iludido e não se sacrifique por quem não lhe merece mais do que o desprezo, junto remetolhe um documento que nos torna quase companheiros de infortúnio e que lhe dará uma idéia justa do caráter desse moço perverso, cuja intenção aso lado de sua família era desonrá-la como desonrou a minha!”
O negociante desdobrou, a tremer, o papel que vinha incluso, e leu aquela célebre carta subtraída por Amélia, alguns tempos antes.
Não quis logo acreditar no que via escrito. Uma nuvem passara-lhe diante dos olhos. “Mas não havia dúvida! Era a letra de Amâncio, era a letra daquele miserável, por quem ele ultimamente passara dias tão penoso!
— Que ingratidão! E o Campos que o tinha na conta de um rapaz
honesto!...Como vivera iludido!...Agora, dava toda a razão ao Coqueiro! Calculava já o que não teria feito o biltre na casa de pensão!
As tais pontas de Mefistófeles iam desaparecendo da cabeça do irmão de Amélia para se revelarem na cabeça de Amâncio.
— E Hortênsia?! Gritou-lhe de surpresa o coração.
— Ah! por esse lado estava tranqüilo!...Por ela meteria a mão no fogo!— Demais, o teor da carta bem claro mostrava que o infame não conseguira seus lúbricos desígnios! — no desespero brutal daquelas palavras via-se indubitavelmente que a “virtuosa senhora” fechara ouvidos ao malvado!
Mas, como se podia conceber tanta perversidade e tanta hipocrisia em uma criatura de vinte anos?!...E lembrar-se o Campos de que, ainda naquela manhã, nem conseguira almoçar direito, de tão preocupado que estava com o destino de semelhante cachorro!...
Agora, nem de longe queria ouvir falar de Amâncio ou do que a estie se referisse. As sua boas intenções sobre o rapaz fugiram de um só vôo e o coração esvaziou-se-lhe de repente, como um pombal abandonado.
Mas ainda lá ficou uma idéia branda e compassiva que respeitava ao ingrato; ainda lá ficou uma mesquinha pomba esquecida, que já não tinha forças para acompanhar as revoada das companheiras, - era a comiseração inspirada pela mãe do criminoso. Essa ficou.
— Que desgraça da infeliz senhora! Possuir um filho daquela espécie!
E o Campos, com as mão cruzadas atrás, encaminhou-se lentamente para o segundo andar, em busca da mulher.
Não a acusou; não lhe fez de leve ima pergunta de desconfiança; apenas disse, pondo-lhe a carta defronte dos olhos:
— Mira-te neste espelho.
Hortênsia ficou lívida.
— Vê tu em que eu me metia!...acrescentou ele. — Defender aquele miserável! Calculo quanto não te incomodaste, minha santa!
E beijou-a na testa.
Ela sacudiu os ombros numa expressão de confiança na própria virtude: - O marido a conhecia bem, para que pudesse recear uma deslealdade de sua parte!
Logo, porém, que lhe escapou da presença, sentiu uma grande vontade de chorar. Correu ao quarto, fechou-se por dentro, e atirou-se à cama, abafando os soluços com os travesseiros que se inundavam.
* * *
Era um desespero nervoso, uma estranha mágoa por alguma coisa que ela não podia determinar o que fosse, mas que só se abrandava com aquela orgia de lágrimas. Sentia gosto em vertê-las, abundantes, fartas, como se as derramasse no fogo que a devorava.
Não obstante, ao receber aquela carta, ainda lhe sobejara coragem para responder, sem afrouxar nos seus princípios de honestidade; mas, agora, uma súbita transformação ganhava-lhe os sentidos e parecia chamar-lhe à cabeça as ondas quentes de seu sangue revolucionado.
— E quem não se revoltaria, pensava Hortênsia, — defronte da sorte tão contrária do lastimável moço, cujo grande crime consistia apenas no muito amor que ela lhe inspirara?...Ah! Era isso decerto o que a enchia de aflição e desalento! — era desgraça dessa pobre criatura, contra a qual tudo parecia conspirar, como se um gênio fantástico e mau a perseguisse! Que seria agora do mísero, sem a proteção do Campos?...Que seria do desgraçado, sem esse último companheiro que lhe restava no meio de tamanhas lutas?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.